O ensaio sobre a cegueira ou o ensaio sobre a cegueira da crítica
Lê-se um livro. Vê-se um filme. Embora o sentido utilizado seja o mesmo (a visão), a percepção é totalmente diferente. O processo criativo – presente em ambos – é de tal forma díspar, que não é possível “olhar” para as letras e para as imagens com os mesmos critérios.
É nesse sentido que fico negativamente surpreendida (ou não, porque o universo da crítica em Portugal é peculiar e mereceria um ensaio sobre “a cultura por vezes ‘surda e muda’ da crítica portuguesa por vezes ‘cega’”) com as recentes críticas feitas ao filme “O Ensaio sobre a Cegueira” – quase todas partindo da “aura” benjamiana do livro para dar um valente safanão na adaptação cinematográfica “pouco próxima” e “desmotivadora” (segundo críticas), numa incongruência de argumentos próxima da filosofia adorniana, como se esta arte inferior (cinema) tivesse sido unida forçosamente à superior (literatura).
Muito bem: este romance de Saramago é o meu preferido de toda a sua obra (pelo menos dos seis que conheço), a par com “Todos os Nomes”. Lembro-me de que o li por volta dos 20 anos e que, na altura, andei, durante uns tempos, marcada pelo horror a que a humanidade consegue submeter-se por vontade própria. A narrativa é de tal forma intemporal e a-espacial que cada leitor pode “viver” a história de maneira diferente.
De facto, o imaginário do filme não começou por ser o que tinha percepcionado no livro. Mas isso não quer dizer que o filme seja menos bom. A tarefa epopeica de Meirelles foi, em minha opinião, conseguida e, analisando o filme pelo filme, apercebo-me de uma extrema sensibilidade realista, próprias do realizador, reflectida também na montagem e pós-produção. No todo, é um filme perturbador, ousado, com um excelente elenco e com vários micro-dramas com fechos surpreendentes (o da mulher do médico, o do velho cego que já era cego, o do próprio médico que se envolve com a prostituta, entre outros).
Por fim, um conselho: se ainda não leu o livro, veja primeiro o filme.



Não sei se será o melhor livro de Saramago («O Ano da Morte de Ricardo Reis» impressionou-me pela riqueza de referências históricas e «O Memorial do Convento» será talvez o que melhor cruza o romance histórico com um mundo imaginário), mas «O Ensaio sobre a Cegueira» é, certamente, o livro mais universal do escritor.
Li-o pela mesma fase (20 anos, também) e não tenho grandes dúvidas de que foi esse o título que deu a Saramago o Nobel (ganho dois anos depois da sua publicação).
Nunca me esqueço, quando do furacão Katrina e do que aconteceu em Nova Orleães, de que algumas das situações que assistimos na televisão são incrivelmente parecidas com o que li no «Ensaio sobre a Cegueira». É essa capacidade de visualizar o horror (e antecipá-lo) que faz deste livro uma obra imprescindível.
Acho que o filme de Meirelles é excelente, mas o projecto do realizador brasileiro estava condenado à nascença: era impossível chegar ao brilhantismo do livro.