Indústrias Criativas em John Hartley e em Stuart Cunningham

istock_000005162457mediumPara John Hartley (2005:5), as indústrias criativas combinam as artes criativas com as indústrias culturais – o exemplo mais flagrante é o entretenimentos nos media. As primeiras descrevem, neste sentido, “a convergência conceptual e prática das artes criativas (talento individual) com as indústrias culturais (escala de massa), no contexto das novas tecnologias dos media, dentro da designada economia do conhecimento e para uso de cidadãos e consumidores interactivos”. Tomam, assim, “talentos criativos tradicionais nas áreas do design, da representação, da produção e da escrita, e combinam-nos com técnicas de produção e distribuição dos media (para escala) e com novas tecnologias interactivas (para personalização) de forma a criar e distribuir conteúdo criativo pelo sector de serviços da nova economia” (2004: 143). O método de produção não é industrial nem normalizado, mas, sim, baseado na inovação e em projectos – aqui John Hartley diferencia-se do conceito de indústrias culturais.

É importante para este autor o facto de as indústrias criativas combinarem as artes criativas com as indústrias culturais, porque esta mudança permite que as artes integrem as indústrias de larga escala como as de media e entretenimento, ultrapassando as velhas dicotomias de elite/massa, arte/entretenimento, patrocínio/comercial, alto/trivial.

As indústrias criativas fornecem produto de conteúdo para a nova economia do conhecimento, onde se sente mais o impacto social do consumo das novas tecnologias e dos meios interactivos, devido ao facto de as pessoas estarem interessadas no conteúdo e não nas tecnologias em si. Neste âmbito, John Hartley afirma que o conteúdo criativo ultrapassa os produtos de lazer e entretenimento, alargando-se aos empreendimentos comerciais, ou seja, o conteúdo criativo passará a ser o “requisito central, quer a aplicação seja um banco, ara uma instituição educativa quer para o ramo do entretenimento, ou quer o utilizador esteja no modo sit up ou sit back” (2004: 143).

O trabalho intelectual e criativo cria uma série de bens não materiais, como invenções técnicas, know-how, marcas, desenhos, criações literárias e artísticas. As disciplinas criativas existentes encontraram, com as novas tecnologias, aplicações comerciais: por exemplo, a animação e a escrita criativa encontraram uma nova aplicação no desenvolvimento de jogos de computador, que evoluíram eles próprios para jogos interactivos e com múltiplos jogadores. Assim, a estimulação deste sector assenta cada vez mais nas empresas criativas que fornecem conteúdos constantemente actualizados a indústrias tecnologicamente avançadas.

Quanto à mão-de-obra criativa, esta assenta em pequenas e médias empresas e em talento criativo em regime freelancing, ou seja, em projectos de pouca duração. As necessidades, neste contexto, concentram-se em grupos interdisciplinares, equipas flexíveis e muito permeáveis em vez de indústrias verticalmente integradas de larga escala.

Stuart Cunningham, por sua vez, segue as directrizes da Unesco, mas faz uma inter-relação entre vários conceitos: as indústrias criativas são simultaneamente indústrias culturais, pela sua representação simbólica, auto-conhecimento e crítica no mundo globalizado; indústrias de serviços, porque transmitem informação e entretenimento num ambiente económico; e indústrias de conteúdos / conhecimento porque requerem níveis significativos de investigação e desenvolvimento para continuarem a inovar (2003: 1).

Para este autor, a definição de indústrias criativas corre o risco de ser demasiado ambígua e ambiciosa ao estabelecer uma ligação entre treze sectores*. Pode diferenciá-las o facto de terem origem no talento e criatividade individuais e o “potencial de gerar emprego e riqueza através da exploração da propriedade intelectual” (2003: 1).

As indústrias criativas funcionam como catalisadores de outros sectores económicos, pelo que são transectoriais (sendo moldadas pela ligação entre as indústrias de media e sectores cultural e das artes); transprofissionais (moldadas pela união de diversos domínios de empenho criativo) e transgovernamentais (porque as políticas envolvem várias áreas). Num ensaio intitulado “Rising Tide of Innovation” (2006), dá exemplos daqueles que pertencem a uma classe criativa, no contexto australiano:

·         directores, designers de moda, cinéfilos, actores e staff envolvido na criação de filmes;

·         os webdesigners que trabalharam no sector financeiro e que mudaram completamente a comunicação com o público (sites, materiais publicitários e interfaces);

·         escritores, romancistas, redactores técnicos e criativos, jornalistas, poetas e argumentistas;

·         artistas, bloggers e webmasters.

 

* As 13 indústrias criativas, definidas e mapeadas num documento governamental inglês intitulado “Creative Industries Mapping Document”, em 1998, valem 7,3% da economia e empregam 1 milhão de pessoas e mais 800 mil em ocupações criativas.

Incluem: arquitectura; mercado de artes e antiguidades; artes performativas e entretenimento; filmes, vídeos e outras produções audiovisuais; design gráfico; indústria editorial; moda; música ao vivo e gravada; ofícios; publicidade; software educacional e de lazer; difusão através da televisão, rádio e internet; escrita e publicação.

Bibliografia

CUNNINGHAM, Stuart (2006) – The Rising Tide of Innovation. In  http://idash.org/pipermail/my-ci/2006-August/000118.html

CUNNINGHAM, Stuart (2003) – From Cultural to Creative Industries: Theory, Industry and Policy Implications. In http://eprints.qut.edu.au/archive/00000588/01/cunningham_from.pdf

HARTLEY, John (2005) – Creative industries. Malden, MA, Oxford e Victoria: Blackwell.

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3 thoughts on “Indústrias Criativas em John Hartley e em Stuart Cunningham

  1. Excelente artigo. Portugal tem ainda muito a aprender. Fala-se demasiado em Inovação, e esquece-se que não há inovação sem criatividade, confundindo estupidamente inovação com tecnologia! Ora inovação fundamenta-se na criatividade, e a critiatividade numa certa forma de pensar livre de constrangimentos, treinável, mas fundamentada numa profunda cultura. E essa cultura profunda é o que falta, e é o que leva à confusão de inovação com tecnologia.
    O pensamento criador rompe com o estabelecido. E o principal problema em Portugal, é que se acha isso colorido, mas completamente inadequado. E o resultado vai estar à vista: vamos ser excelentes utilizadores de Internet Explorer, mas nunca vamos verdadeiros motores da economia fundados na criatividade.
    http://dreamfeel.wordpress.com/2009/03/08/design-criatividade-e-inovacao/