Os tristes comentários dos públicos do Público

Diz Habermas que a esfera pública é um domínio (físico ou virtual, acrescento eu) onde se pode formar a opinião pública, porque está aberto a todos os cidadãos que, por sua vez, agem como público quando exprimem as suas perspectivas e as tornam visíveis. Na era digital, o espaço para comentários dos leitores nos jornais on-line assumia-se, a princípio, como potencial espaço público para legitimação das várias discussões da sociedade. Infelizmente – por hoje, assumo a posição céptica – isso não acontece.

Tomemos por exemplo o jornal Público, uma publicação de referência. As secções de comentários de artigos estão impregnadas de autênticas baboseiras. Em cada 20 comentários, tal vez exista um que de facto me leve à reflexão ou que sirva de base para eu formar a minha própria opinião. Claro que sou a favor deste tipo de participação pública, mas quase tenho vontade de dizer uma blasfémia: “caro cidadão leitor, se não tem nada de jeito para dizer, se não usa este espaço de expressão que durante séculos e séculos lhe foi privado para efectivamente contribuir para a deliberação pública, mais vale remeter-se ao silêncio”.

Surge isto a propósito do painel de comentários que já se formou em torno do artigo promocional do Público, intitulado “Um jornal fora da caixa”, mas poderia ser em relação a qualquer outro. O jornal, que comemora no próximo dia 5 de Março o seu 21.º aniversário, convidou António Câmara, director da YDreams, para ser director da respectiva edição.  Os comentários dos leitores ao vídeo de apresentação, no qual António Câmara fala por três minutos, embora ainda sejam apenas 9, já exemplificam muito bem o que pretendo dizer, pois resumem-se a isto: “Ele que faça uma OPV dele próprio e me desampare a loja”, “De que caixa é que retiraram este homem?”, “Metam-no dentro da caixa”, “Volte para a caixa”…

Presumo que, daqui a umas horas, o painel de comentários incluirá mais passagens destas, opiniões forjadas ou inventadas para equilibrar o respectivo painel, defensores e adversários de António Câmara, e alguns comentários úteis – poucos.

Até quando serão estes leitores, em especial, propositadamente parte de um público débil?

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