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Um jornalista cultural tem de cobrir, analisar e reportar áreas culturais muito diversas, como a dança, as artes plásticas, o teatro, a música, o cinema, a Internet ou o design. Além disso, tem de saber contextualizá-las de acordo com os países ou regiões de onde provêm. Essa complexidade de competências e saberes é “agravada” com o advento das novas tecnologias (ciberarte, Internet, blogues), que obriga o jornalista a estar permanentemente actualizado. No entanto, a urgência do próprio mecanismo de construção de notícias, as pressões do mercado e até mesmo a pouca qualificação dos jornalistas acabam por ser obstáculos à qualidade do seu desempenho.

Para Rodriguez, o jornalista cultural tem de possuir “uma cultura geral que o permita identificar e correlacionar fenómenos, épocas, autores e obras significativas nas vertentes local e universal, segundo uma forte dose de observação e criatividade, e uma capacidade para sistematizar e sintetizar processos complexos numa fórmula comunicacional”. Neste contexto, é visto como um antropólogo social.

Isabelle Anchieta de Melo identifica três desafios para a formação de futuros jornalistas: a abordagem de temáticas clássicas, como a política e a economia através de uma óptica cultural, a inclusão de novas temáticas culturais – design, culinária e moda, por exemplo – que ganharam esse status recentemente, e o tratamento “sem preconceito” das indústrias culturais. A este desafio acrescentamos o tratamento das indústrias criativas.

Cabe também ao jornalista cultural ultrapassar (e fazer ultrapassar na mente das pessoas) a fronteira entre “alta” e “baixa” cultura e a limitação temática de lançamento de bens culturais, fruto da agenda de eventos. Há que ter mais competências (e vontade) para a análise e interpretação da cultura, sendo exigido, neste contexto, uma perspectiva aberta, sem paradigmas dominantes – além do referido, acresce a distinção entre indústrias culturais e cultura erudita, entre arte e mercado.

Uma formação básica de jornalistas culturais deverá incluir:

  • a problematização dos conceitos de cultura e jornalismo cultural;
  • leituras reflexivas sobre produtos culturais;
  • desenvolvimento do sentido estético para a observação e descrição das obras culturais,
  • apresentação do processo produtivo e dos géneros culturais;
  • compreensão e exploração das potencialidades dos diferentes meios na cobertura noticiosa cultural.

 

Esta formação permite que o jornalista cultural cumpra três características definidoras desta especialidade já abordadas em capítulos anteriores: o papel social, como mediador da obra cultural, o que o obriga a ter a capacidade de a compreender; o papel de responsabilidade social, veiculando a cultura a partir de uma abordagem aberta, sem paradigmas dominantes; o papel reflexivo, cumprindo simultaneamente uma função informativa e crítica.

favela4O termo “cooltura” foi lançado em tom provocatório por Luís Rasquilha no primeiro evento sobre “Novas Tendências da Cultura”, promovido pela Agência Inova em parceria com o Museu do Fado, no passado dia 2 de Julho.

 

Segundo este gestor de comunicação, professor “por caso” e estudioso dos comportamentos do público e tendências a nível mundial, em particular na área da cultura, esta tem de passar a ser “cool”, isto é, “atractiva, inspiradora e com capacidade de crescimento”. Partindo da premissa de que a coolturalização é uma tendência mundial que concorre lado a lado com outras tão mais visíveis como as alterações climáticas, Luís Rasquilha partilhou algumas ideias com a audiência, constituída, na maior parte, por gestores culturais, das quais realço algumas:

  • a de que o produto cultural tem de passar a ser trabalhado como uma marca (estudos indicam que esta psa 70% na escolha dos consumidores);
  • a de que a comunicação cultural tem de deixar de ser somente informativa, mas “atractiva e inspiradora”, ou seja, centrada no benefício, conseguindo responder à questão básica do consumidor “o que ganho eu com isto”?
  • a de que a cultural deve ser paga, para lhe ser atribuída valor;
  • a de que os gestores culturais têm de ter estratégias de comunicação que extravasem a publicidade tradicional.

Luís Rasquilha exemplificou alguns destes pontos com campanhas culturais desenvolvidas recentemente no âmbito das “branded arts” e desta noção alargada de cultura, inserida, lá está, no contexto das indústrias culturais e criativas, que tenho vindo a defender: casos da campanha do filme “Blood Diamond”, integrando “intelligent graffit”, da instalação “Rio de Janeiro Favela Art” ou da campanha “Ipod MyBaby”.

A estes pontos, acrescento outras provocações pessoais, as quais tive oportunidade de partilhar na altura:

 

  • são os próprios gestores culturais portugueses que têm de dar o passo para a “cooltura” (em boa verdade, a visão de cultura elitista, que vale só por ser “cultura”, é alimentada quer por alguns artistas quer pelos próprios promotores);
  • é necessário disseminar a ideia de que um produto cultural tem de ser tratado como uma marca, objecto de estratégias de marketing e de campanhas inovadoras, e que tem de ultrapassar definitivamente o crivo adorniano da “indústria cultural”.
  • é essencial ter em conta que a criatividade não é somente um impulso artístico, mas uma ideia inovadora, que tem (e esse é o elemento diferenciador) uma funcionalidade;
  • a cultura também necessita de logística (este último ponto surge na sequência da celebração do aniversário de um conceituado espaço cultural há uns dias que optou por “oferecer” bens e serviços culturais aos seus públicos, sem se preocupar com as mínimas questões logísticas, nem mesmo pequenos caixotes de lixo para colocar os copos de cerveja que se iam amontoando no chão… A ecologia também é uma tendência cultural).

Fotografia: “Rio de Janeiro Favela Art”.

Factory%20Birmingham%201960sNos anos 50 e 60, surge em Inglaterra um projecto que procura estudar as práticas culturais quotidianas, no contexto do protagonismo dos media. Nascido no Center of Contemporary Cultural Studies (CCCS) em Birmingham, é conhecido actualmente por Cultural Studies ou Estudos Culturais. Em parte, os Cultural Studies surgem, precisamente, como resposta intelectual às mudanças preconizadas por Walter Benjamim, em 1930, e por Adorno e Horkheimer, nos anos 40 do século XX: ao impacto da televisão, dos jornais, das revistas e da publicidade, e ao advento das subculturas e das novas formas de cultura popular, que começaram a ter protagonismo enquanto mediada pelos meios de comunicação de massa e novas tecnologias. É neste período que é abandonada a “Cultura” para se afirmarem várias culturas e práticas culturais.

No entanto, não podemos desprezar as políticas culturais desenvolvidas por Mathew Arnold (1822-1898) e Frank Raymond Leavis (1895-1978) que predominaram nos estudos ingleses até metade do século XX e que estiveram na origem dos Cultural Studies. Mathew Arnold foi dos primeiros teóricos a falarem de “cultura popular”, mesmo que o tenha feito de um modo radicalmente negativo, oposta à “verdadeira” cultura e emergente da desordem social e política que se vivia então na Inglaterra. Cultura era para este teórico “o melhor que se tenha pensado e dito no mundo” por uma minoria intelectual, que assentava nos clérigos. Frank Raymond Levis continua com esta concepção arnoldiana de cultura, opondo-se veementemente à cultura de massa. A cultura popular é sinónimo de mau gosto, superficialidade e declínio. São os cânones da literatura e das artes que devem salvar a humanidade. (Sousa, 2004: 20).

São considerados fundadores dos Cultural Studies Richard Hoggart (“The Uses of Literacy”, 1957), Raymond Williams (“Culture and Society”, 1958) e Edward Thompson (“The Making of the English Working Class”, 1963). Mais tarde, junta-se Stuart Hall, que tem também um papel decisivo na emergência deste projecto. Estes teóricos pegam de forma definitiva nos temas de cultura popular, cultura do operariado e cultura de massa, dando-lhes importância enquanto objectivo de estudo, o que constitui, de facto, uma ruptura com o passado. Richard Hoggart foi o primeiro a elevar a cultura popular a objecto de investigação científica, pesquisando no seio das classes operárias britânicas sobre os hábitos e estilos de vida dessas pessoas, ou seja, a sua cultura. Também Thompson e Williams estudam a cultura a partir dos exemplos populares.

O traço distintivo dos Cultural Studies é o papel central que atribuem aos media nas mudanças sociais e culturais; nesse sentido, estes estudiosos defendem que a análise cultural deverá integrar tanto a cultura idealista, que se focaliza no ideal de perfeição intelectual e artística, como a cultura patrimonial, centrada nos registos, memórias e documentos produzidos pela humanidade e a cultura de práticas quotidianas. No entanto, a cultura de massas não é somente um produto dos media – é o resultados das sociedades policulturais modernas.

Num dos seus livros mais importantes, “The Sociology of Culture”, Raymond Williams relembra a dificuldade em definir o termo “cultura”, traçando uma curta cronologia da evolução deste conceito quanto ao seu significado, desde o sinónimo “cultivo” e a partir do século XVIII como cultivo do espírito e uma forma de vida dos iluminados. Williams distingue ainda três significados comuns do termo “cultura”: como estado mental diferenciado (uma pessoa culta); como processos do seu desenvolvimento (“interesses culturais”); e meios desses processos (cultura como artes e trabalhos intelectuais). Estes significados coexistem com a definição antropológica de “uma forma de vida” de um grupo ou pessoa.

Segundo este sociológico, usa-se a palavra “cultura” em dois sentidos: para designar todo um modo de vida, reflectido nas actividades culturais, como linguagem, estilos artísticos e trabalho intelectual, e numa perspectiva de “ordem social” (“a whole social order”) no seio de uma cultura específica, em que os estilos artísticos e trabalhos intelectuais derivam de outras actividades sociais. Estas duas vertentes integram-se na perspectiva idealista e materialista, respectivamente (Sousa, 2004: 39).

 

Esta definição de cultura tem uma relação directa com o seu carácter “ordinário”, isto é, algo usual e comum a todas as pessoas, sejam elas de classe alta sejam de baixa. Deste modo, rompe também com a classificação da cultura de “elite” ou “popular”. A cultura não se restringe à produção artística, mas inclui todas as expressões e significações de valores de um povo. Parte do seu projecto é, precisamente, estudar a “cultura comum” em oposição à de massa ou à de “elite”, uma divisão que, segundo Williams, não existe.

Até hoje, foi criado e desenvolvido um espaço de discussão variada sobre as várias dimensões da cultura (seja ela alta ou baixa, de elite ou popular) e das suas vertentes sociológica, antropológica e até económica. Mas o importante é que todos os estudos se centram nos media e nos novos media para compreender os diversos fenómenos culturais são só a nível local como global.