Cultural Data Project – o que os dados nos dizem sobre o sector cultural

O tratamento de dados na cultura é essencial para conhecermos o sector e a distribuição dos mais variados recursos (financeiros, programáticos e operacionais). O projecto norte-americano Cultural Data Project é um bom estudo de caso para se fazer algo semelhante em Portugal. O último relatório – “New Data Directions for Cultural Landscape” – também é muito interessante.

Bons grupos sobre indústrias e cidades criativas no Facebook

(23/08/2011) Sou fã do Facebook, por muitos motivos e por este em particular: é uma fonte de informação privilegiada quando bem usada. São os casos dos grupos “de trabalho”, comunidades que partilham informações sobre temas do seu interesse profissional e académico.

A título de exemplo, as indústrias criativas e as cidades criativas são áreas que investigo indirectamente no meu Doutoramento e que já começam a estar bem representadas em blogues de pesquisa e em grupos do Facebook que facilitam a investigação.

Exponho abaixo alguns dos mais dinâmicos

» Creative Cities Lexington

» Creative Cities (British Council) 

» Creative Clusters Networks

» KUT Creative Industries

» Creative Industries KTN

» Indústrias culturais e criativas em Portugal

 

A criatividade é emocionante. O Algarve não foi.

Diz Belén, coolhunter e autora do blogue Coolnalism, que a criatividade e as férias têm em comum serem, ambas, emocionantes. Porém, a primeira parte das minhas férias não foi nem criativa nem (por isso) emocionante.

Esta incapacidade de descobrir o lado criativo e emocionante do Algarve remonta à minha infância (e desta culpa não se safam os meus pais). Enquanto os meus colegas da escola rumavam ao Algarve, eu descobria o Gerês (que saudades do parque do Vidoeiro), as cidades nortenhas, os restaurantes soberbos que o meu avô conhecia em quase todos as vilazinhas; enquanto os meus amigos desfrutavam das águas mornas algarvias, eu travava batalhas com as praias da Ericeira e arredores.

No entanto, esta lacuna geográfica fez-me, a certa altura, pedir aos meus pais para passarmos férias no Algarve. E o local eleito (há 17 anos, mais ou menos) foi a… Quarteira. Nada emocionante, nada criativo, mesmo que, na altura, ainda não soubesse definir “criatividade”.

Outra infeliz recordação que guardo do Algarve tem que ver com a viagem de finalistas, o ex-libris da escola secundária. Enquanto os colegas que estudavam “Francês” queriam ir a Palma de Maiorca, como todos os finalistas, nós, os de “Alemão”, lembrámo-nos de ir a Berlim, lá está. Desde canções de Natal em alemão para angariar fundos – ainda hoje sei cantar “O Tannenbaum” – a baile de máscaras no Carnaval a tentar cobrar entradas, tentámos tudo. No fim, não havia dinheiro para ir a Berlim e já não havia vagas para a viagem de finalistas. Fomos a Lagos (e com as professoras de Alemão a reboque).

Quando comecei a ter o meu próprio dinheiro para férias, fui escolhendo sempre cidades estrangeiras e o Algarve foi, assim, ficando de lado. Fui lá algumas vezes, claro, mas nunca em estado de férias exclusivo.

Por isso, neste ano, resolvi passar uma semana no Algarve (Carvoeiro), a fazer o menos possível (“pack hotel + piscina + praia + livros”). Não foi a minha primeira escolha, claro, mas o dinheiro não chegava para ir a Praga.

Muitos turistas, muita praia, pouca areia para pôr a toalha, muito sol, muito calor, pouca oferta cultural, pouca comida decente… Descobri também que o “pack hotel + piscina + praia + livros + não fazer nada” não resulta comigo. O ponto alto dos dias era mesmo quando ia descobrir vilazinhas ou ficava na esplanada à noite a observar as pessoas.

No entanto, para não pensarem que sou uma esquisita nórdica que só gosta dos países frios, partilho convosco (o que posso partilhar) o melhor dessa semana:

» a dourada deliciosa que comi no restaurante da praia da Nossa Senhora da Rocha;

» a espetada de lulas também deliciosa do restaurante “Novo Velho”, em Ferragudo (a própria vila é amorosa. Obrigada, Cláudia, por ma mostrares);

» a praia da Marinha (uma das mais bonitas do Algarve, sem dúvida);

» a praia do Alvor, à tardinha, e a fila de esplanadas fora da confusão;

» os três livros que pude ler de um só fôlego. Comprometi-me a não levar nenhum de jornalismo, apenas boa ficção de autores portugueses – Gonçalo M. Tavares, Patrícia Reis e Ana Teresa Pereira (esta nunca deixa de me surpreender);

» as revistas de que pude desfrutar sem pressas (a Monocle continua no topo, a “V” tem uma aplicação óptima para o iPad e a Project Mag, desenhada exclusivamente para o iPad, foi uma descoberta interessante).

 

Allgarve – uma experiência que não marcou assim tanto.

Cuidado com o plágio!

(23/05/2011) Não é tão invulgar como parece. Na redacção de trabalhos académicos, é muito fácil incorrer em situações de plágio, mesmo inconscientemente. Este documento, produzido pela Comissão de Avaliação de Casos de Autoria do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense, enumera os tipos mais comuns de plágio, dá exemplos de quando ocorrem e fornece pistas para a redacção de um texsto científico tendo em conta o conjunto de licenças Creative Commons. De leitura obrigatória.



Votar ou não votar no Sócrates por ser “fashionista”

(25/04/2011) Estava eu a beber café numa das minhas pastelarias preferidas da Avenida de Roma quando apanho a conversa (que reproduzo o mais fielmente possível) de dois rapazes já com idade de votar a conjecturar sobre o estilo de José Sócrates…

«Ya, li na Net que o Sócrates vai à loja mais cara de Beverly Hills para se vestir», diz um.

«Isso de caro é muito relativo…», sublinha o outro.

«Epá, acho que uma camisa custa 500 dólares ou assim», responde.

«Oh, estes ténis custaram 500 euros», riposta o outro.

Viro-me um pouco para tentar estabelecer uma correspondência das vozes com as personagens. Não consigo ver os ténis nem sequer as caras deles, porque parecem ter sido engolidas pelos cabelos.

Continuam…

«Até acho que isso é fixe, ao menos faz boa figura lá fora»

«Sim, ele é pintas, é. O gajo tem estilo»

«E é nos momentos de crise que o pessoal tem te ter mais estilo»

«Tem feito muita ****, mas acho que vou votar no tipo»

 

Não querendo tornar estes rapazes numa amostra representativa dos jovens, confesso que ainda não tirei isto da cabeça. Alguém me pode ajudar a dormir melhor hoje? Vamos lá reflectir um pouco sobre os pontos positivos e negativos desta conversa…

1. É POSITIVO os jovens lerem na Net, mas fui à procura do artigo em questão e acabei por perceber que esse boato tem origem num artigo do jornal «i», de 2009, e que foi agora recuperado em época pré-eleitoral sem contextualização, assumindo que isso se passa agora (NEGATIVO).

2. É POSITIVO os jovens terem noção do valor do dinheiro, mas fiquei sem saber se achavam que uns ténis de 500 euros eram, afinal, caros ou não (NEGATIVO).

3. É POSITIVO os jovens entenderem que a diplomacia é importante e que uma boa apresentação faz a diferença, mas será que concluem que ter estilo é vestir roupa “cara” (NEGATIVO)?

4. É POSITIVO os jovens saberem que o país está, de facto, a enfrentar uma crise, mas acabei por não perceber a afirmação “é nos momentos de crise que o pessoal tem de ter mais estilo” (POSITIVO ou NEGATIVO, consoante a interpretação).

5. É POSITIVO os jovens terem vontade de votar, mas Sócrates vai receber o voto daquele jovem por ter estilo, apesar de ter feito muita **** (NEGATIVO)?

 

Crenças pessoais à parte, e apesar de seguir a indústria da moda e das tendências de perto, parece-me que usar o estilo como sustentação de um voto é, no mínimo, uma atitude irreflectida. No entanto, teorias do jornalismo já provaram que não é assim tão invulgar. E as assessorias de imagem também.

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Instantes da Holanda – o seu ícone nacional

A bicicleta é, sem dúvida, o meio de transporte mais utilizado na cidade de Amesterdão. São, literalmente, centenas de pessoas que, a qualquer hora do dia, mas especialmente entre as 08h e as 10h da manhã e as 16h e as 18h, partilham nas suas bicicletas as vias com os carros ou as ciclovias e os passeios com os peões. A cultura da bicicleta está tão intrusada no dia-a-dia que é comum os holandeses andarem com os seus filhos, cães ou colegas “à pendura” a mais de 20 km/hora.

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Como objecto pessoal, estes meios reflectem geralmente o estilo ou o status da pessoa que o conduz, embora muitos holandeses optem por uma bicicleta mais rudimentar, dado que são roubadas por ano, só na cidade de Amesterdão, mais de 50 mil bicicletas (num universo de 500 mil).

Imaginem se fossem automóveis…

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Jornalismo online – os desafios da experimentação

“Jornalismo online – Os desafios da experimentação”, de Valério Brittos e Aléxon João,  é um artigo aparentemente simples, com mensagens que exigem uma reflexão complexa. Sublinho as seguintes passagens:

“Neste quadro, a experimentação ganha novo papel, essencial em toda atividade econômica, em especial àquelas vinculadas à cultura, como o jornalismo.”

É, de facto, indispensável inovar no jornalismo para vingar. Por outro lado, gostei que os autores usassem a palavra “cultura”, porque, por qualquer razão, há quem pense que o jornalismo não é uma actividade cultural. Não tenho dúvida de que, no seio das indústrias culturais, o jornalismo (ou, melhor, toda a indústria de conteúdos) é a principal actividade e merece ser analisada de três pontos de vista: comunicacional, cultural e económico.

“Qualidade parece ser a palavra-chave nessa era tecnológica, relativizando-se valores seculares do jornalismo, como objetividade, transparência, atualização, veracidade, imparcialidade, fidelidade e isenção, por motivações que passam por condicionamentos econômico-políticos.”

Claro. Sem qualidade, os media online não sobreviverão. E não argumentem com aquelas balelas usadas na televisão, como “o público consome o que lhes dão”. Os leitores não são palermas. Principalmente os que consomem informação (na verdadeira acepção da palavra) online.

“Para isso, é necessário investimento e capacidade de inovar, não o tradicional uso das tecnologias para reduzir o tamanho das redações.”

António Granado di-lo em “Onze Nomes”: com menos, não se pode fazer mais. Eu diria “melhor”.

O artigo está disponível aqui na íntegra.

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Leituras sobre novos modelos de negócio no jornalismo

O jornalista tem de sair do pedestal e assumir o perfil de empreendedor, ou seja, correr riscos,  conhecer os princípios de gestão de uma empresa e ter noção da multidisciplinaridade que envolve um negócio do jornalismo. Isto se quiser, naturalmente, vingar. Não poderia concordar mais com Rosental Alves, um gigante do jornalismo, professor da Universidade de Austin e docente do workshop “Digital Journalism for a Network Society” que está a decorrer na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (e o qual tenho o privilégio de estar a frequentar).

 

Enumero abaixo algumas leituras essenciais sobre novos modelos de negócio do jornalismo:

 

(Oportunamente, irei acrescentando mais links úteis.)

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Eu, o meu pai e Saramago

Quando li pela primeira vez Saramago, ainda tinha na minha mesa-de-cabeceira os livros da colecção “Uma Aventura”. O mesmo aconteceu com outros senhores da literatura, como Eça de Queirós, David Mourão Ferreira ou José Cardoso Pires. A culpa foi do meu pai.

O meu pai sempre foi (e é) um bebedor de livros. E eu, com os meus anos ainda de escola preparatória, sempre que via o meu pai com um livro nas mãos, perguntava-lhe se era giro. O meu pai respondia “Sim, mas ainda não é para a tua idade”. Ora, naturalmente que, mal o meu pai pousava o livro, lá ia eu lê-lo. (Isso também aconteceu com alguns romances que não eram mesmo para a minha idade, como o “O Amante de Lady Chatterley” de D. H. Lawrence, mas isso é outra história.)

Por isso, curiosamente, Saramago está relacionado com a minha infância, uma época muito feliz. Se não gostei tanto de “Memorial do Convento”, “Ensaio sobre a Cegueira” e “Todos os Nomes” são certamente dois dos livros da minha vida. Também por ter tido o primeiro contacto com o escritor ainda nova, li-o despojado de quaisquer conotações marxistas, comunistas, religiosas, etc. E, para mim, Saramago, Nobel da Literatura em 1998 (não convém esquecer), é um grande escritor da língua portuguesa que faleceu. Ponto final.

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O jornalismo digital não é um parente pobre do jornalismo

O jornalismo digital é isso mesmo – “jornalismo”. Por várias ordens de razão, o jornalismo digital tem sido, até agora, visto como um parente pobre do jornalismo. Uma delas é, precisamente, a proliferação de blogues e sites de conteúdos; contudo, os leitores não podem confundir estes registos com órgãos de comunicação on-line; eu sou jornalista, mas este blogue não é um órgão de comunicação social, é um registo pessoal daquilo que considero interessante e útil para os meus leitores, de referências que partilho (e considero que devem ser promovidas) sobre jornalismo cultural, indústrias culturais e criativas, que constituem os temas da minha investigação académica e pessoal, e de temas que acho que devem vir ao público, mas que não têm espaço nos meios de comunicação social, por vários motivos, desde a contingência do espaço aos compromissos publicitários.

Penso que os (bons) blogues e as redes sociais são essenciais na contemporaneidade e, de facto, alguns dos primeiros aproximam-se do jornalismo quer pela sua natureza quer pelos seus autores. Porém, ao contrário dos meios de comunicação online, não são obrigados a cumprir uma linha editorial nem o código deontológico do jornalismo. Infelizmente, alguns blogues são meros instrumentos de publicidade e marketing. E é necessário ter presente esta fronteira entre jornalismo digital e conteúdos on-line para que o primeiro possa usufruir da extrema importância que lhe deve ser dada. Assumo, aqui e perante os meus leitores, que sou fã convicta das revistas digitais!

Este parêntesis serviu de introdução a uma entrevista (muito simples, mas muito rica em mensagem) que reproduzo abaixo e na qual me revejo (quase) na totalidade. Foi feita a José Luis Orihuela, professor universitário e autor do reconhecido blogue “eCuaderno”, e publicada no jornal El Impulso (venezuelano).

¿Cómo visualiza el periodismo digital en unos años especialmente en aquellos lugares donde se cercena la libertad de expresión?

Para entender el futuro del periodismo lo mejor es quitarle los adjetivos. El periodismo siempre será crítico con el poder y celoso guardián de la libertad. Otra cosa es la propaganda, que aunque se haga en blogs o en Twitter, sigue siendo propaganda.

¿Qué protagonismo ha tenido la Web 2.0 en el nuevo proceso comunicacional impuesto en el mundo con relación a la libertad de expresión o prensa?

La web social consiste en la apropiación por parte de la gente corriente de las herramientas de comunicación disponibles en línea para realizar actividades de publicación autogestionada, pero no son una manifestación del periodismo. En cualquier caso, la expresión popular a través de internet está mostrando los límites cada vez más evidentes de los intentos de prolongar sistemas de control de la información anteriores a la era digital.

¿El periodismo digital desplazará finalmente a los medios tradicionales?

El periodismo se hace en medios. Los nuevos medios no desplazan a los viejos, sólo les hacen cambiar.

¿Cuáles son las ventajas y desventajas del periodismo electrónico?

Insisto en que el periodismo no es digital, ni electrónico, ni telefónico: es periodismo. El ejercicio del periodismo en medios digitales tiene las ventajas derivadas del potencial comunicativo de las plataformas digitales: interactividad, multimedialidad e hipertextualidad. La principal desventaja deriva de la nueva relación que se establece con el tiempo. El tiempo real está sustituyendo a la periodicidad y está eliminando buena parte de la reflexión asociada a los procesos editoriales tradicionales.

Recomiende algunas páginas web que usted considere sean muy completas y entren en la categoría de los verdaderos medios electrónicos

Algunos de los medios que lo están haciendo muy bien en la red son: la BBC, el Guardian, el New York Times, la CNN y el National Geographic. En español destaco: Clarín y La Nación de Argentina, El Comercio de Perú, El Mercurio de Chile, El Tiempo de Colombia y Milenio de México.

¿Cuál es el impacto de las redes sociales en la sociedad actual?

En los países más desarrollados las redes sociales ya se han convertido en una parte de la vida y de la cultura cotidiana de la gente, igual que la electricidad, el agua corriente o la telefonía. Los medios sociales están cambiando no sólo los modos en los que nos relacionamos con los demás, también los negocios, la educación y la política.

Desde su punto de vista, ¿Qué es más completo par un periodista y un ciudadano común: utilizar Facebok, blog, Twitter, podcast?

Las necesidades de comunicación para un periodista y para un ciudadano común pueden ser bastante diferentes. Un profesional de la información tiene que utilizar todos los medios a su alcance para monitorizar, editar y distribuir información. A un ciudadano común le puede bastar con una red social para resolver sus necesidades de comunicación a distancia.

¿En qué consiste la revolución de los blogs?

Los blogs fueron el comienzo de lo que hoy llamamos la web social o web 2.0, una evolución en la historia de internet por medio de la cual la gente corriente pudo comenzar a publicar todo tipo de contenidos a escala global, en tiempo real y sin editores.

¿Cómo ve un experto en periodismo digital el uso de la Web 2.0 en Venezuela? Se utiliza con el propósito para el cual fue creada?

Por lo general, las tecnologías de la comunicación no se utilizan nunca para el propósito con el que fueron creadas. Afortunadamente los usos sociales de la tecnología son mucho más ricos, innovadores y revolucionarios que las prescripciones de la industria. En Venezuela, como en Cuba y otros países en los que la libertad de expresión está seriamente amenazada o directamente cercenada, la web social se ha convertido en el gran pulmón informativo que permite que los ojos del mundo conozcan la realidad a pesar de la voluntad de los gobernantes

¿Qué tan amplia es la libertad de prensa en la internet?

Según Reporteros sin Fronteras, en su Informe Depredadores 2010, existen al menos 40 países, organizaciones o jefes religiosos que atacan directamente a los periodistas. Las amenazas a la libertad de expresión, libertad de prensa y libre circulación de información y bienes culturales son uno de los mayores desafíos que enfrentan nuestras sociedades a nivel global.

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O paradigma tecnológico e a construção do conhecimento

“(…) esta mudança digital é sobre muito mais do que novas ferramentas online, maior eficiência, velocidade e marés implacável de informação. A tecnologia mudou a forma como pensamos. A mudança digital é sobre novas formas de trabalho, novas formas de reflexão, novas abordagens para a resolução de problemas e, como consequência, novas formas de construção do conhecimento e partilha.”

A mais recente publicação da LabforCulture, intitulada “Converging Pathways to New Knowledge” reúne “conversas” de personalidades das indústrias criativas sobre a forma como o paradigma tecnológico afecta a construção do nosso conhecimento.

A versão online está disponível aqui.

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Jornalistas a reboque de “Achas que sabes dançar?”

Tenho reparado que, nos últimos tempos, os jornais diários têm dado mais espaço, embora ainda pequeno, à dança nas respectivas secções culturais. Curiosamente, desde que teve início o fenómeno televisivo “Achas que sabes dançar?”. Acerca disto, sou confrontada com duas opiniões contraditórias: será que a imprensa escrita tem de andar a reboque destes fenómenos televisivos para cobrir uma área um pouco desprezada no panorama mediático generalista (e que agora poderá trazer mais leitores)? Ou será que deve precisamente aproveitar esta atenção dos leitores devido ao programa para aumentar a cobertura desta área cultural, num contexto de convergência mediática e assumindo um papel educativo há algum tempo esquecido?

Parece-me que a escolha é simples. Não sejamos arrogantes.

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Consulta pública sobre o Livro Verde das Indústrias Culturais e Criativas

Decorre até 30 de Julho a consulta pública online sobre o Livro Verde das Indústrias Culturais e Criativas (“Unlocking the potential of cultural and creative industries”), promovida pela Comissão Europeia. A consulta, aberta a todos os cidadãos e organizações, tem como objectivo reunir perspectivas de vários assuntos relacionados com estes sectores que têm cada vez maior peso económico na Europa.

O documento pode ser lido aqui.

As contribuições podem ser dadas aqui.

 

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II Congresso de Jornalismo Cultural

O II Congresso de Jornalismo Cultural, promovido pela revista Cult, começou ontem, 3 de Maio, e acaba no próximo dia 6. Do primeiro dia, destaco as conferências de Beatriz Sarlo sobre “Jornalismo cultural, literatura contemporânea e as novas mídias de comunicação” e do escritor Eric Lax sobre a formação de um biógrafo. Alguns excertos do evento (muito curtos, infelizmente) estão disponíveis, em vídeo, no blogue do Congresso,  e no twitter.

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As artes e ofícios portugueses estão de luto

Era presidente da Federação Portuguesa de Artes e Ofícios e da Associação de Artesãos da Região do Norte, designer e um grande, grande amigo. Os criadores portugueses devem-lhe muito e merece ser lembrado pela sua entrega total (a troco de poucas horas de sono, muito tabaco, porventura fatais para o seu coração, e um ordenado injusto) às artes e ofícios portugueses. Miguel Oliveira faleceu Domingo à noite, de ataque cardíaco.

Conheci-o há cerca de oito anos. Tinha trinta e poucos anos e estava a tentar entrar no ensino superior. Eu dava, na altura, formação em técnicas de expressão escrita, e o Miguel frequentou o curso para se candidatar ao exame ad hoc. Conseguiu ingressar em Design na ESAD de Matosinhos. Um ano mais tarde, encontrei-o por acaso e começou aí uma parceria de trabalho que durou mais de dois anos, com o objectivo de divulgar o artesanato e apoiar os criadores portugueses, através de fundos comunitários. Eu apenas contribuí com competências editoriais – apenas, porque foi durante esse período que tive o privilégio e a tristeza de experienciar o quanto a dedicação extrema a uma causa pode gerar em sofrimento. Miguel deu tudo: projectou as artes e ofícios internacionalmente, contribuiu para a legalização dos artesãos, potenciou a Artesanatus (feira internacional de artes e ofícios do Porto), fez das histórias dos artesãos livros… E, em troca, recebia, por vezes, a incompreensão de pessoas, que exigiam ainda mais… Entretanto, os apoios decresciam e a crise do país encostava as artes e ofícios à porta de uma sala de arrumos.

Por isso tudo, nos últimos anos, estava muito cansado. Queria desistir não dos criadores, mas das politiquices culturais. Abriu um atelier de design com dois colegas de faculdade, estava a tirar o mestrado em design ecológico e a sua motivação actual era construir um abrigo nocturno reciclado para os sem-abrigo. Há cerca de um mês, quando fui ao Porto em trabalho, confidenciou-me novamente que ia desistir do associativismo cultural. Como já mo tinha dito tantas vezes, nem lhe dei conversa. Agora, foi obrigado a desistir.

O Culturascópio mudou

Mudou porque todos precisamos de uma renovação de vez em quando. E os blogues também.

No entanto, a ilustração que suportou o blogue desde o seu início, em Novembro de 2008, mantém-se como imagem da secção “Notas & Reflexões”. Há coisas que devem ser mantidas, sobretudo para nor lembrarmos da sua origem.

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A cultura e o (meu) sonho

Sempre que reflicto sobre a importância da cultura e da criatividade nas nossas vidas, acabo sempre por chegar à mesma conclusão. Não estou a falar do contributo para o PIB ou da importância para a educação das pessoas. Refiro-me a um poder mais íntimo, privado, que os bens culturais exercem sobre nós – a capacidade de nos fazer sonhar.

Um livro, um filme, uma peça de teatro ou uma exposição que nos devolva a vontade de ler, ver, experienciar, de sonhar ou que, mais importante que tudo, nos devolva a “capacidade” de sonhar é das experiências mais bonitas e gratificantes que se pode ter.

De todos os traços comuns às indústrias culturais e criativas, a capacidade de fazer sonhar é, para mim, a mais importante, sem dúvida.

Bons sonhos.

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Como é que uma obra de arte vale 74 milhões de euros?

A escultura em bronze “O Homem Andante”, de Alberto Giacometti, foi vendida recentemente em leilão por 74,4 milhões de euros, batendo o recorde mundial. Embora seja uma obra de arte emblemática deste artista suíço, a verdade é que foi vendida por um preço três vezes superior à estimativa mais elevada. E a questão que se põe é óbvia: que critérios levam a que uma obra de arte valha tanto dinheiro, em contexto de crise mundial? Melanie Clore, da Sotheby´s (empresa responsável pelo leilão), dá cinco: as condições em que a obra se encontra (neste caso, muito boas); a reputação do artista (Giacometti é considerado um dos escultores mais importantes do século XX); a raridade (a escultura provém de uma edição original de seis peças); a competitividade (houve licitadores de pelo menos 30 países no leilão da Sotheby´s); por fim, a qualidade do investimento (segundo a Sotheby´s, é sólido).

O artigo original pode ser lido na íntegra aqui.

Quando (ou por que motivo) é que as artes se tornaram notícia?

O novo editor de arte da BBC News, Will Gompertz, não poderia ter escolhido melhor tema para inaugurar a sua jornada: “Quando é que as artes se tornaram notícia?”. Gompertz responde através de uma citação de um poeta do século XIX, ao mesmo tempo que introduz o tipo de jornalismo de artes que pretende praticar na BBC. O artigo pode ser lido no seu blogue.

A minha primeira boysband

Quando passei para a 4.ª classe (agora chama-se 4.º ano) os meus pais perguntaram-me se eu queria uma bicicleta. Eu respondi que preferia um “rádio com cassetes”. Não era costume os meus pais darem-me presentes por passar de ano (diziam que era a minha obrigação ter boas notas e que deveria fazê-lo por mim e, provavelmente, foi isso que me levou a entrar na faculdade com média de 19, algo a que também não achava muita piada para não ter imagem de “croma” em vez da de “popular”).

Voltando ao assunto, se não me falha a memória, uns dias depois de me oferecerem o tal rádio com cassetes, fizeram-me outra surpresa e deram-me “a” cassete dos Modern Talking, a minha primeira boysband. Tinham cabelo comprido, eram uns autênticos pirosos (assim como as suas letras), mas eu delirava com aquelas músicas que tentava cantar com microfone na boca dias e dias… e dias. O meu pai, fã do Leonard Cohen (vejam a peça), dizia, para me irritar, que aquele grupo era uma nulidade e que eu iria esquecer-me deles passados uns tempos. E disse-me o mesmo em relação a muitos outros “Modern Talking”: os Bros, os New Kids on the Block, os Bon Jovi, etc.

Na verdade, estava eu há uns dias a procurar uma música no You Tube quando me deparo com os Modern Talking. Já não gosto do estilo, embora seja fã dos 80s, mas não pude deixar de sentir um conforto feliz ao ouvi-los… aquele conforto de infância.

Para recordar: Modern Talking – You´re my heart, you´re my soul

O jornalismo não acaba aqui.

O debate em torno do fim do jornalismo tornou-se uma tendência, menosprezando, por vezes, aquilo que verdadeiramente importa nesta problemática.  Não posso concordar com este pessimismo gratuito e superficial que tem contribuído para o aumento da precariedade profissional. É a auto-estima dos jornalistas que baixa e a própria função social da profissão que é posta em causa; são alguns empregadores que se aproveitam disso e da crise para aumentar a precariedade; são também os actores do marketing e da comunicação que tornam supostas fronteiras nublosas.

É, sim, um facto de que o jornalismo “como o conhecemos até agora” pode estar em vias de extinção. Porém, isso não significa que a profissão acabe. É quase um cliché dizer isto, mas, se o advento da internet e das redes sociais tornaram os cidadãos editores e criadores de media, tal não significa que saibam exercer a profissão de jornalista. Claro que os jornalistas têm, cada vez mais – e isto não é uma ironia –, de defender a necessidade de existirem, de praticarem um bom jornalismo e de se adaptarem aos novos modelos comunicacionais. Em vez de debatermos o “final” do jornalismo, por que não centrarmo-nos no “novo” jornalismo?

Aflorei este assunto (voltarei ao mesmo mais tarde) a propósito da preocupação de uma futura jovem jornalista do primeiro ano da faculdade que pensa que a sua profissão vai acabar e de um artigo publicado hoje no Guardian, intitulado “End of Journalism As We Know It”, por Kevin Marsh. “Como cidadãos, parecemos, por vezes, gostar da ideia de o jornalismo estar em crise” é o mote do artigo. De leitura obrigatória.

Natal à beira-rio | Boas-festas e até 2010

NATAL À BEIRA-RIO 

É o braço do abeto a bater na vidraça?

E o ponteiro pequeno a caminho da meta!

Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,

A trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.

Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

Que ficava, no cais, à noite iluminado…

Ó noite de Natal, que travo a maresia!

Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.

E quanto mais na terra a terra me envolvia

E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me

À beira desse cais onde Jesus nascia…

Serei dos que afinal, errando em terra firme,

Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

 

 David Mourão-Ferreira
Obra Poética 1948-1988

 

Os animais não são – mesmo – bons presentes de Natal

Ming12Marco 004À semelhança do que diz a Time Out, também ouço de vez em quando coisas hilariantes no metro. Desta vez, ia em direcção ao Saldanha e duas senhoras (a propósito, minha senhora, já não se usam calças que asfixiam a barriga e deixam os pneus completamente de fora, quanto mais decotes que asfixiam o peito e o deixam literalmente espetado para o nariz da pessoa que está a um milímetro de distância por o metro estar ensardinhado de gente) estavam à conversa sobre uma cadelinha: “quando é que tem os cachorros?”, pergunta uma. “Daqui a dias”, responde a outra. “O que vais fazer com eles?”, “Vou dar-los no Natal”. “A quem?”, “Atão, às minhas sobrinhas”.

Pois… ainda é símbolo cultural nacional oferecer cães e gatos como peluches e prendas de Natal aos miúdos, animais esses que, tal como os peluches, deixam de ter interesse passados uns tempos (ou quando, por uma praga qualquer de que não se estava à espera, crescem).

Pois… é verdade que em Portugal os animais ainda têm o estatuto de coisas (sim, no nosso Código Civil). Será esse documento responsável pela representação que temos da nossa identidade e das coisas que nos rodeiam? Não acho.

Milhares de animais são abandonados anualmente pelos respectivos donos. Haverá milhares de pessoas que consideram os animais “coisas”? Haverá milhares de pessoas que não entendem que os animais são seres sensíveis que sofrem? Será que até privo com pessoas sem o saber que abandonaram animais e até poderei considerá-las “boas pessoas”? (Se for o seu caso, por favor, avise-me, para não ter de privar mais consigo; quando a isso nem as mais assertivas teorias sociológicas ou antropológicas me convencem.)

O meu primeiro cão – um pequinês de raça pura – foi impingido aos meus pais, quando eu tinha doze anos, porque o dono da altura tinha um filho que passava os dias a dar-lhe pontapés e estava consignado à cozinha (provavelmente, pensavam que quanto mais caro um cão fosse, menos trabalho daria). Foi a primeira vez que tive uma “coisinha” que me pedia diariamente amor, carinho, alimento e para ir à rua três vezes por dia. Foi esta “coisinha” que me fez ver o que era ter responsabilidade sob alguém, preocupação constante e também amor incondicional.

Depois do Chang, os meus pais tiveram um Ming (que morreu há quatro anos de velhice) e depois outro Ming, desta vez gato (na foto), este resgatado da morte, ironicamente no Natal.

É por isto tudo que, quando ouço falar de animais como presentes de Natal, me pergunto sempre se esta frase tão inocente à partida não será mesmo símbolo da representação que os portugueses têm dos animais.

Regresso à partilha

Dora_Santos_SilvaApós uma série de imprevistos que me deixaram na impossibilidade de actualizar o Culturascópio, regresso à conversa consigo, leitor, que já considero um amigo. A partilha da escrita tem de ser cada vez mais um acto de amizade, de grande valor, numa altura em que as palavras parecem ser mais efémeras do que nunca.

“A. M. Lisboa: Plataforma Transcultural para o séc. XXI” ? Porquê acreditar na nova Agência para as Indústrias Criativas?

lisboaA agência para gerir uma plataforma de indústrias criativas na Área Metropolitana de Lisboa vai ser lançada amanhã, dia 12, na Culturgest, tal como já tinha referido há uns dias aqui. Por enquanto denominada “Agência para as Indústrias Criativas” – dado que o nome só será revelado amanhã –, este projecto, promovido pelo galerista Luís Serpa, tem como objectivo principal criar uma plataforma estratégica autónoma para implementar projectos nas áreas das indústrias criativas (já abordei o conceito aqui e aqui). O siteLisboa Transcultural” contém todas as informações sobre o mesmo.

 

A apresentação formal da Agência para as Indústrias Criativas será feita, amanhã, terça-feira, na Culturgest, entre as 09h30 e as 11h00. As senhas para assistir terão de ser levantadas 30 minutos antes. Esta será apenas a primeira de uma maratona de conferências e mesas-redondas que decorrerá até ao dia 29, no mesmo espaço.  

 

Feitas as apresentações, tive oportunidade de estar na apresentação do projecto aos jornalistas, no passado dia 07 de Maio – aliás, foi mais uma conversa entre todos os presentes do que uma apresentação formal – , encontro que gerou várias notícias, como esta que pode ser lida aqui.

 

Por isso, o que se segue é mais uma reflexão pessoal do que propriamente uma abordagem jornalística (dado que esta já foi cumprida quase integralmente e sê-lo-á durante estes dias).

 

O que me faz acreditar nesta Agência para as Indústrias Criativas?

 

  • Foi, é e será um projecto pensado e implementado continuamente, com um grupo de reflexão permanente, com pessoas de diferentes backgrounds, que ajudem a fixar conceitos e formas de pensar a trabalhar. Fazem parte deste grupo nomes como Vivien Lovell (UK), Scott Burnham (CAN), Justin O’Connor (AUS), Dingeman Kuilman (NL), Andrew Carmichael (UK), Piers Roberts (UK), Pedro Costa, Jorge Gaspar, Catarina Vaz Pinto e Luís Serpa (PT), moderado por Michael DaCosta Babb (UK), cuja sapiência e humildade me cativaram profundamente.
  • Um dos objectivos da Agência é aliar a criatividade ao mercado e alargar a própria noção de cultura, aspecto pela qual me debati precisamente na minha tese de mestrado. Aliás, Luís Serpa fala de uma “Lisboa transcultural” e não “intercultural” ou “multicultural”, conceitos estes já ultrapassados e redutores.
  • A Agência acredita que não é capaz de fazer tudo sozinha e aliou-se, nas várias áreas, a parceiros estratégicos.
  • O seu lema é “Arte, Tecnologia e Empreendedorismo” e os 3 C´s “Conhecimento, Competitividade e Consumo”.
  • Por último, fixei estas declarações de Luís Serpa, cruciais, do meu ponto de vista, para o sucesso deste projecto: “Há que acabar com a ideia do ‘subsísio’”, “A nossa referência identitária não é a língua, mas o território”, “O sistema fiscal é essencial para as indústrias criativas”, “É essencial compatibilizar a arte, a tecnologia e o empreendedorismo, isto é, a sua pertinência comercial e internacional”, “As indústrias criativas necessitam de condições de desenvolvimento de negócio” e “Os artistas têm de deixar de olhar para o mercado com desconfiança”.

 

A.M. Lisboa: Plataforma Transcultural para o séc. XXI?

lisboaE a propósito de Cultura e Economia, na sequência da nova estratégia comunicativa da Feira do Livro de Lisboa, visitem o site Lisboa Transcultural, um novo projecto do galerista Luís Serpa, relacionado com as indústrias culturais e criativas e as respectivas potencialidades da Área Metropolitana de Lisboa como plataforma transcultural para o século XXI,  de que falarei muito em breve aqui.

O prazer de uma papelaria ampla

magazine_rackGosto de poder observar as revistas de todos os formatos e feitios em prateleiras amplas, com possibilidade de explorar as capas, os respectivos temas de capa e o contexto visual e temático em que se inserem. Por isso, foi mesmo com borboletas no estômago que descobri que a velha papelaria/tabacaria no Centro Comercial Roma reabriu com centenas de revistas dispostas de forma ordenada, mesmo de propósito para regalar os olhos. E foi lá que comprei a edição de Abril da Monocle, uma das minhas revistas preferidas, que, por acaso, nunca encontrei na Barata, outro espaço de eleição, uns passos à frente na Avenida de Roma, onde ainda posso circular livremente pelas publicações e sentar e beber um café e passear, sem ninguém a perguntar-me de três em três segundos se preciso de ajuda ou a olhar-me de lado enquanto folheio qualquer coisa.

 

Parabéns a estes espaços.

Forum for Creative Europe IV – Como subsidiar a cultura?

john-howkinsJohn Howkins, especialista em Economia Criativa,  afirma que a melhor forma de subsidiar organizações culturais e os próprios artistas é ajudando ambos a serem auto-suficientes, dando-lhes formação sobre o mercado, o seu público e consumidores. Numa época de crise, “é completamente errado” tirar dinheiro à arte, à cultura e à imaginação das pessoas porque se trata de qualidade de vida; no entanto, há que dotar os artistas de meios para se tornarem pessoas de negócio e conhecerem as leis de mercado, isto porque o conflito tradicional entre ser artista e ser um homem de negócios está, na opinião deste professor, completamente ultrapassado.

 

O vídeo da entrevista pode ser visto aqui.

Forum for Creative Europe III – “Contra o fetichismo da criatividade”

gottfried_wagner_profile“Creativity is a beloved non-word, an almost messianic formulation; one of those public screens onto which everyone can project almost everything. It is a term coined to offer hope and positive expectation; a catchword to employers and a must in job application letters. Invoking it is de rigueur for ‘alternative minds’ rebelling against bourgeois ‘virtues’. And now it has also become an essential part of the EU-speak of the Lisbon Agenda.”

 

Tornou-se a criatividade o novo fetiche? Gottfried Wagner, director da European Cultural Foundation e presente no Forum for Creative Europe, aponta no artigo “Against the fetishising of creativity” algumas contradições que norteam a discussão da criatividade, esperando que “o fetichismo não vença a racionalidade”. Em primeiro lugar, é necessário criar um discurso da criatividade que seja positivo para “todos” – nações, sociedades e indivíduos -, não privilegiando apenas a sociedade ocidental; em segundo, desenvolver novos modelos organizacionais que controlem a ganância criativa e o sector privado; em terceiro, aprofundar soluções criativas para o uso sustentável da energia e da produção; por último, poupar em vezs de desperdiçar, competir sem arruinar a interdependência, num esforço de responsabilidade mútua e cidadania.

 

O artigo original está disponível aqui.

Forum for Creative Europe II – Transmissão em directo

forum2Está a ser transmitido em directo o “Forum for Creative Europe” a partir do site oficial.

 

Da parte da manhã, o painel subordinado ao tema “Artes, Culturas e Ecologias Criativas” reuniu Michael Hutter, Director da Unidade de Investigação em “Fontes Culturais de Inovação” da Universidade Técnica de Berlim, David Throsby, professor de Economia da Universidade Macquarie (Sydney), John Holden, professor de Políticas Culturais, John Howkins, chairman da BOP Consulting e Nina Obuljen, secretária de Estado do Minisério da Cultura da República da Croácia.

 

O contributo da arte e da cultura para a prosperidade das nações, bem como os conceitos de economia criativa e ecologias criativa, estiveram em discussão durante quase duas horas.

 

À tarde, no mesmo painel, serão discutidos aprofundadamente os conceitos de indústrias criativas e classe criativa e o balanço da sua implementação em alguns países, para o qual se contará com a intervenção de Richard Florida, a partir das 15h30.

 

Amanhã, merecem destaque os painéis “Sociedade Civil na Era Criativa”, “Cidades Criativas”, ambos das 10h30 às 12h00, e “Criatividade e Skills”, das 12h15 às 13h30.

“Criatividade é coisa de meninos. Não resolve a crise.”

theeggTenho acompanhado regularmente o siteCriar2009.gov.pt” – para quem não sabe é a paragem oficial portuguesa do ano europeu da criatividade e inovação, com destaque para a forte presença do twitter (a propósito do twitter, não deixem de acompanhar as últimas reflexões de Rogério Santos sobre esta ferramenta social, as quais partilho na totalidade quando se refere ao seu uso infeliz para aspectos mundanos).

 

Regressando ao tema deste post, no seu último artigo de opinião publicado no site, Jaime Quesado cita Charles Leadbeater – “Inovação, tal como o simples acto de nadar, não se faz por decreto, mas antes indo para o terreno, aprendendo com os factos e com os resultados” – para reforçar, mais uma vez, a importância da criatividade e da classe criativa no nosso país (para entenderem o significado da palavra “reforçar”, terão de ler os restantes artigos deste autor no mesmo site).

 

Ora, num almoço recente estava eu a falar deste site e da importância das indústrias criativas a uma pessoa respeitada do meio económico-social quando, em tom de enfado, ela me diz: “A criatividade é coisa de meninos. Não resolve a crise”. Infelizmente, esta é uma afirmação paradigmática do tecido empresarial português, reveladora de um total desconhecimento destes conceitos. “Criatividade” é mais do que uma “série de rabiscos”, tal como a “classe criativa” não é de todo uns “meninos com rastas e ideias utópicas”. Ou será Portugal um país fechado num preconceito tal que não vê os exemplos dos seus vizinhos britânicos nos quais as indústrias criativas têm cada vez mais um peso considerável no PIB (e, sim, muitas desenvolvidas por génios com rastas e brincos no nariz)?

 

O que é, afinal, a criatividade?

A noção de artista como génio criativo tem a sua origem no Renascimento, embora tenha sido consolidado no século XVIII; nesta altura, a criatividade começou a ser aplicada não apenas a Deus, como ao artista e ao seu trabalho. Kant definiu-a como a habilidade mental necessária para a produção de arte, uma capacidade caracterizada pela originalidade, em oposição à imitação.

Hoje, a criatividade ultrapassa o campo das artes e do artista. Já não é vista como uma capacidade rara, mas presente em todas as pessoas, isto é, todos temos um potencial criativo, que poderá ser ou não desenvolvido.

A criatividade envolve avaliação crítica; é comum quer na ciência e na matemática quer nas artes, embora estas sejam vistas como ímpares no desenvolvimento da criatividade e inteligência emocional; é multidimensional, envolvendo conhecimento emocional, intelectual, social, cultural, espiritual, moral, político, tecnológico e económico; não é simplesmente uma divagação da mente, envolvendo conhecimento e competências.

A criatividade está muito ligada à inovação, à capacidade de ver além do que está desenvolvido, daí que implique direitos de autor. Para John Howkins, a era da informação está a ser substituída pela era da criatividade, onde precisamos de “informação, mas também de sermos activos, espertos e persistentes em desafiar essa informação. Precisamos de ser originais, cépticos, argumentativos, frequentemente positivos e ocasionalmente negativos – numa palavra, criativos”.

Ser criativo é, na versão mais simples, “ter uma ideia nova”. Ter uma ideia nova implica que esta seja pessoal, original, útil e que tenha significado. No entanto, a criatividade no contexto das indústrias criativas implica um valor comercial.

Todas as pessoas são criativas, mas o facto de qualquer um poder cozinhar um ovo e pensar não significa que se torne um cozinheiro ou um intelectual. O mesmo se aplica à criatividade: todas as pessoas a têm, mas apenas algumas retiram valor económico e social dela, pelo seu trabalho ou talento. A função social da criatividade é atingida não só pelos indivíduos “a serem criativos”, mas por factores, como o capital, as infra-estruturas, os mercados, os processos de larga escala, os direitos de propriedade intelectual, que organizam a criatividade. Neste sentido, os artistas, os músicos, os designers e os escritores são os beneficiários mais óbvios desta organização social da criatividade, mas não determinam o seu formato ou a sua estrutura, no seu todo.

Indústrias Criativas em John Hartley e em Stuart Cunningham

istock_000005162457mediumPara John Hartley (2005:5), as indústrias criativas combinam as artes criativas com as indústrias culturais – o exemplo mais flagrante é o entretenimentos nos media. As primeiras descrevem, neste sentido, “a convergência conceptual e prática das artes criativas (talento individual) com as indústrias culturais (escala de massa), no contexto das novas tecnologias dos media, dentro da designada economia do conhecimento e para uso de cidadãos e consumidores interactivos”. Tomam, assim, “talentos criativos tradicionais nas áreas do design, da representação, da produção e da escrita, e combinam-nos com técnicas de produção e distribuição dos media (para escala) e com novas tecnologias interactivas (para personalização) de forma a criar e distribuir conteúdo criativo pelo sector de serviços da nova economia” (2004: 143). O método de produção não é industrial nem normalizado, mas, sim, baseado na inovação e em projectos – aqui John Hartley diferencia-se do conceito de indústrias culturais.

É importante para este autor o facto de as indústrias criativas combinarem as artes criativas com as indústrias culturais, porque esta mudança permite que as artes integrem as indústrias de larga escala como as de media e entretenimento, ultrapassando as velhas dicotomias de elite/massa, arte/entretenimento, patrocínio/comercial, alto/trivial.

As indústrias criativas fornecem produto de conteúdo para a nova economia do conhecimento, onde se sente mais o impacto social do consumo das novas tecnologias e dos meios interactivos, devido ao facto de as pessoas estarem interessadas no conteúdo e não nas tecnologias em si. Neste âmbito, John Hartley afirma que o conteúdo criativo ultrapassa os produtos de lazer e entretenimento, alargando-se aos empreendimentos comerciais, ou seja, o conteúdo criativo passará a ser o “requisito central, quer a aplicação seja um banco, ara uma instituição educativa quer para o ramo do entretenimento, ou quer o utilizador esteja no modo sit up ou sit back” (2004: 143).

O trabalho intelectual e criativo cria uma série de bens não materiais, como invenções técnicas, know-how, marcas, desenhos, criações literárias e artísticas. As disciplinas criativas existentes encontraram, com as novas tecnologias, aplicações comerciais: por exemplo, a animação e a escrita criativa encontraram uma nova aplicação no desenvolvimento de jogos de computador, que evoluíram eles próprios para jogos interactivos e com múltiplos jogadores. Assim, a estimulação deste sector assenta cada vez mais nas empresas criativas que fornecem conteúdos constantemente actualizados a indústrias tecnologicamente avançadas.

Quanto à mão-de-obra criativa, esta assenta em pequenas e médias empresas e em talento criativo em regime freelancing, ou seja, em projectos de pouca duração. As necessidades, neste contexto, concentram-se em grupos interdisciplinares, equipas flexíveis e muito permeáveis em vez de indústrias verticalmente integradas de larga escala.

Stuart Cunningham, por sua vez, segue as directrizes da Unesco, mas faz uma inter-relação entre vários conceitos: as indústrias criativas são simultaneamente indústrias culturais, pela sua representação simbólica, auto-conhecimento e crítica no mundo globalizado; indústrias de serviços, porque transmitem informação e entretenimento num ambiente económico; e indústrias de conteúdos / conhecimento porque requerem níveis significativos de investigação e desenvolvimento para continuarem a inovar (2003: 1).

Para este autor, a definição de indústrias criativas corre o risco de ser demasiado ambígua e ambiciosa ao estabelecer uma ligação entre treze sectores*. Pode diferenciá-las o facto de terem origem no talento e criatividade individuais e o “potencial de gerar emprego e riqueza através da exploração da propriedade intelectual” (2003: 1).

As indústrias criativas funcionam como catalisadores de outros sectores económicos, pelo que são transectoriais (sendo moldadas pela ligação entre as indústrias de media e sectores cultural e das artes); transprofissionais (moldadas pela união de diversos domínios de empenho criativo) e transgovernamentais (porque as políticas envolvem várias áreas). Num ensaio intitulado “Rising Tide of Innovation” (2006), dá exemplos daqueles que pertencem a uma classe criativa, no contexto australiano:

·         directores, designers de moda, cinéfilos, actores e staff envolvido na criação de filmes;

·         os webdesigners que trabalharam no sector financeiro e que mudaram completamente a comunicação com o público (sites, materiais publicitários e interfaces);

·         escritores, romancistas, redactores técnicos e criativos, jornalistas, poetas e argumentistas;

·         artistas, bloggers e webmasters.

 

* As 13 indústrias criativas, definidas e mapeadas num documento governamental inglês intitulado “Creative Industries Mapping Document”, em 1998, valem 7,3% da economia e empregam 1 milhão de pessoas e mais 800 mil em ocupações criativas.

Incluem: arquitectura; mercado de artes e antiguidades; artes performativas e entretenimento; filmes, vídeos e outras produções audiovisuais; design gráfico; indústria editorial; moda; música ao vivo e gravada; ofícios; publicidade; software educacional e de lazer; difusão através da televisão, rádio e internet; escrita e publicação.

Bibliografia

CUNNINGHAM, Stuart (2006) – The Rising Tide of Innovation. In  http://idash.org/pipermail/my-ci/2006-August/000118.html

CUNNINGHAM, Stuart (2003) – From Cultural to Creative Industries: Theory, Industry and Policy Implications. In http://eprints.qut.edu.au/archive/00000588/01/cunningham_from.pdf

HARTLEY, John (2005) – Creative industries. Malden, MA, Oxford e Victoria: Blackwell.

Lisboa dos meus batimentos cardíacos

img_7229Já perdi a conta às vezes que me reapaixonei pela cidade de Lisboa. Neste Domingo, no final da tarde, lá aconteceu outra vez. Encheu-se-me o peito, as borboletas invadiram-me o estômago e a sensação de contenção dos batimentos cardíacos que experimentei ao olhar para alguns cenários de Helsínquia, de Barcelona ou da minha eterna Copenhaga (aquela sensação que tememos perder um dia) regressou na Praça Luís de Camões. Foi um misto de orgulho por ver que está tudo a ser restaurado e de prazer por ter voltado a senti-La. É muito bom apaixonar-me por outras cidades, mas melhor ainda é contar com o amor e o afecto da minha Lisboa.

 

(Esta é a base de uma relação feliz. O meu pai também o diz à minha mãe há cerca de 33 anos. )

Indústrias culturais – A Perspectiva de David Hesmondhalgh

9781412908085As indústrias culturais passaram por grandes transformações desde os anos 80, revelando uma crescente importância nas sociedades e na economia:

·   já não são consideradas como “actividades secundárias”, estando no centro da acção económica de muitos países;

·   a sua organização mudou radicalmente, pois as empresas mais fortes actuam em diferentes indústrias culturais e não apenas numa específica, como a produção televisiva ou a edição;

·   ao mesmo tempo, crescem as pequenas empresas na área da cultura, estabelecendo-se relações e parcerias entre pequenas, médias e grandes empresas;

·  os produtos culturais circulam além-fronteiras;

·    os conteúdos são marcadamente híbridos, misturando imagens, som e texto;

·   houve uma proliferação de novas tecnologias de comunicação, como a Internet e novas aplicações das tecnologias existentes;

·   a forma como as indústrias culturais entendem os seus públicos mudou, havendo uma preocupação nos inquéritos de consumo, no marketing cultural e na caracterização dos nichos de mercado;

·  há uma crescente preocupação com as políticas culturais e com aquelas relacionadas com os direitos de autor;

·  as audiências e os hábitos culturais são cada vez mais complexos;

·  os textos sofreram alterações radicais, com novos estilos, inserção crescente da criatividade e de materiais publicitários.

Por que são importantes as indústrias culturais? David Hesmondhalgh justifica com três ordens de razão: porque criam e fazem circular textos; porque gerem e fazem circular a criatividade; porque são agentes de mudanças económicas, sociais e culturais. (2007: 4-7).

 

1.        As indústrias culturais criam e fazem circular “textos”

David Hesmondhalgh afirma que, mais do que qualquer tipo de produção, as indústrias culturais criam e divulgam produtos, que o autor designa de textos, que influenciam a nossa percepção do mundo. Os filmes, a televisão, a rádio, a música e os videojogos fazem representações do mundo que contribuem para aquilo que somos, fantasiamos e sentimos; constroem a nossa identidade enquanto mulher, homem, africano, português, europeu, americano, homossexual, punk, etc.

Posto isto, as indústrias culturais têm uma influência decisiva na nossa vida e, consequentemente, nas sociedades contemporâneas. Importa referir que a maior parte dos textos é produzida por grandes empresas que têm em vista o lucro, o que levanta questões sobre as necessidades do público versus as aspirações económicas. Aliás, há uma grande concorrência entre as indústrias culturais, particularmente entre grupos de comunicação, o que influencia decisivamente os produtos culturais que são veiculados.

 

2.        As indústrias culturas gerem e fazem circular a criatividade

Segundo este teórico norte-americano, as indústrias culturais preocupam-se com a gestão e venda da criatividade simbólica. Ao longo da História, a arte foi sendo considerada uma das formas mais nobres da criatividade humana. Ora, a criação de histórias, músicas, imagens, poemas, argumentos, reportagens, etc., envolve um tipo particular de criatividade – a manipulação de símbolos, com os propósitos de entreter, informar e esclarecer. Daí que o autor prefira chamar a estes trabalhos “criatividade simbólica” (em vez de arte) e criadores simbólicos (em vez de artistas). Importa relevar que os jornalistas também são, naturalmente, criadores simbólicos, uma visão importante para compreender os capítulos que se seguem.

Estes criadores simbólicos são os criadores dos textos de toda a espécie das indústrias culturais e estes não existiriam sem eles, mesmo que as indústrias se caracterizem pela reprodução, distribuição e marketing. A forma como as indústrias culturais organizam e divulgam a criatividade simbólica reflecte algumas injustiças e ambivalências presentes nas sociedades contemporâneas, principalmente na forma precária como os criadores simbólicos trabalham e a dificuldade em arranjar audiências para os seus textos.

 

3.        As indústrias culturais são agentes de mudanças económicas, sociais e culturais

Não há dúvida de que as indústrias culturais são fontes de riqueza e emprego em muitas economias: basta pensar na importância da indústria cinematográfica e discográfica nos Estados Unidos da América, no papel dos jornais e das revistas em todo o mundo… O advento das marcas (Coca-Cola, Nike, Disney, entre milhões de outras) fez crescer as indústrias culturais, pela publicidade, pelos filmes, pela influência na forma como entendemos o mundo. As sociedades modernas são sociedades do conhecimento e da informação e isso basta para provar o papel que as indústrias culturais têm na economia e na cultura.

Revistas culturais portuguesas – II

Semanário Se7e (1977 – 1994)

Fundado em 1977 pelo grupo Projornal, o semanário Se7e foi, durante os seus 17 anos de existência, uma referência na cultura portuguesa, acompanhando de perto aquela que foi, na década de 80, a época de ouro da música popular e rock portugueses. Pela sua direcção passaram nomes ilustres do jornalismo e da literatura, como Mário Zambujal, Carlos Cáceres Monteiro, João Gobern, Manuel Falcão, Afonso Praça e Rodolfo Iriarte.

Do leque de colaboradores fizeram parte Fernando Assis Pacheco, Pedro Rolo Duarte, Margarida Rebelo Pinto, António Rolo Duarte, José Manuel da Nóbrega, entre outros.

Na última edição, datada de 28 de Dezembro de 1994, o editorial de Manuel Falcão já dava conta das principais dificuldades por que o jornalismo cultural iria passar (ainda antes do advento da internet): “os problemas entraram-nos pela casa dentro. Hoje em dia felizmente que não há quase ninguém que não publique roteiros e guias de espectáculo. (…) Dantes quase ninguém falava de discos, da música pop, do rock nem pensar. O cinema era assunto perdido nas páginas finais dos periódicos. O Se7e foi feito ao contrário de tudo isso. E por isso mesmo teve sucesso”.

Revistas culturais portuguesas – I

flamaRevista Flama (1937 – 1976)

A revista Flama, fundada a 5 de Fevereiro de 1937 pela Juventude Escolar Católica (na altura em formato de jornal quinzenal) – passando por sucessivas direcções e reformulações ao longo dos 40 anos de existência –, foi uma das revistas mais marcantes do século XX em Portugal, considerada por muitos a precursora das newsmagazines portuguesas.

Na edição de 28 de Maio de 1944, a revista, tornada entretanto mensal, anunciava o seu posicionamento: “[Flama] tem entre os seus fins o de promover o progresso das letras e do amor pela ciência entre a gente môça. Podíamos ocultar um pouco a nossa qualidade de católicos activos e muito aumentaria o nosso público, mas a Flama não quer equívocos e tem amor a situações claras” (Fonseca, 2007 ; 6). Foi nesta data que teve início a longa tradição de entrevistar figuras do espectáculo, geralmente capas de revista, e a cobertura do mundo das artes e cultura, que incluiu inclusive um concurso literário e filosófico cujo júri era constituído por grandes nomes das letras portuguesas. O ênfase na reportagem, acompanhada de muitas fotografias, foi conquistando cada vez mais leitores, alcançando os 17 mil exemplares por mês.

Em 1949, com uma nova proprietária, o director delineava assim o perfil da revista: “(…) dirige-se ao grande público, a todas as pessoas de bom gosto, que preferem o belo ao pornográfico, o elevado ao banal, e acham mais nobres e humanas as coisas da vida quando através delas perpassa um sopro de espiritualidade”. Acrescentava que a publicação incluía “selectos trechos literários, lindos contos, entrevistas, utilidades, histórias infantis, modas e lavores, desporto, cinema e actualidades”, embelezadas pelo “suave perfume da arte”.

A revista passou, entretanto, por muitas dificuldades financeiras e várias direcções, mas conseguiu alcançar, entre 1967 e 1971, os 30 mil exemplares e as 68 páginas. Na altura, a sua filosofia editorial integrava assuntos políticos importantes e dava destaque às figuras do espectáculo. A 2 de Setembro de 1976, teve o seu fim.

Cultura em revista

ipsilon

De regresso a Lisboa, após três dias em Genebra (de que “falarei” oportunamente), passo em revista alguma imprensa e blogues, para reencontrar o meu porto de abrigo.

Eis o que me prendeu…

 

1.    A morte de António Alçada Baptista, aos 81 anos, no passado Domingo, dia 7 de Dezembro

O escritor e jornalista é recordado no Público pela sua “sensibilidade feminina” – enquadrava-se, segundo o próprio, entre os raros escritores que não tinham vergonha dos afectos – e defesa da “liberdade e dos direitos do Homem”. Para recordar o seu vasto contributo para a cultura portuguesa, é curioso ler, a título recordatório, um artigo publicado no urbi et orbi, de 2001, sobre o tema escolhido por Alçada Baptista a propósito das comemorações dos 75 anos do Orfeão da Covilhã, sua cidade-natal – “A importância da cultura na sociedade”.

 

2.  “O Mau uso dos microblogues”

A BBC admitiu um erro ao usar fontes do Twitter (via Indústrias Culturais)

 

3.    “Três livros de escritores portugueses fazem parte da lista dos 25 melhores livros de ficção traduzidos e publicados em 2008 nos Estados Unidos”

São eles “The Book of Chameleons (O Vendedor de Passados), de José Eduardo Agualusa, traduzido por Daniel Hahn (Simon & Schuster); Death with Interruptions (As Intermitências da Morte), de José Saramago, traduzido por Margaret Jull Costa (Houghton Mifflin Harcourt)¸ What Can I Do When Everything’s on Fire? (Que Farei Quando Tudo Arde?), de António Lobo Antunes, traduzido por Gregory Rabassa (W. W. Norton). A notícia completa pode ser lida no blogue Ler.

 

4.   Manoel de Oliveira completa 100 anos a filmar, no dia 11 de Dezembro

Ler a opinião de José Hermano Saraiva e o motivo da necessidade imperiosa de filmar no dia do seu aniversário, segundo o próprio realizador. Quem quiser assistir ao seu percurso cinematográfico, a Cinemateca termina por estes dias o ciclo dedicado à sua obra. O impressionante conto de Eça de Queirós – “Singularidades de uma rapariga loura” –, obra que Oliveira está precisamente a realizar, está disponível parcialmente aqui.

 

5.    “O suplemento de indústrias culturais do Público, o Ípsilon, já tem extensão online”

Um dos meus suplementos preferidos (via Blogtailors e Bibliotecário de Babel)

 

Melancolia de uma quarta-feira outonal

eandradeHoje, sinto-me desprovida de estações do ano e de “palavras exactas”. E por isso me recordo do Verão de Eduardo Prado Coelho e do Inverno de Eugénio de Andrade.

 

VEGETAL E SÓ

É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
Sem nenhuma melancolia,
eduardo_prado_coelho1Sem encontros marcados,
Sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito
O mais ardente dos meus braços,
O mais azul
O mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálperas acessas.

Deixa-me só, vegetal e só,
Correndo como rio de folhas
Para a noite onde a mais bela aventura
Se escreve exactamente sem nenhuma letra.

in «As palavras Interditas» (1951)

 

A vantagem de um blogue é podermos partilhar valores sem as amarras dos aniversários, das celebrações e das actualidades.

Sobre a definição de indústrias criativas – I parte

industrias_criativas1O conceito de “indústrias criativas” tem menos de 20 anos. Teve origem nos anos 90, na Austrália, tendo sido desenvolvido pela Creative Industries Taskforce, criada em 1997, no Reino Unido, durante o Governo de Tony Blair. Actualmente, as indústrias criativas têm um peso considerável na taxa de crescimento de alguns países, como a Inglaterra, a Nova Zelândia, a Austrália, a Holanda ou a Dinamarca, para os quais os sectores cultural e criativo geram mais de 8% dos postos de trabalho.

As indústrias criativas são “aquelas que têm origem na criatividade, capacidade e talento individuais, e que potenciam a criação de riqueza e de empregos através da produção e exploração da propriedade intelectual” (Creative Industries Mapping Document, 1998). Nesse sentido, incluem as seguintes áreas:  arquitectura, mercado de artes e antiguidades, artes performativas e entretenimento, cinema, vídeo e outras produções audiovisuais, design, moda, música, ofícios, património, publicidade, software educacional e de lazer, televisão, internet, rádio, escrita e publicação.

Para John Hartley, as indústrias criativas combinam as artes criativas com as indústrias culturais, mudança que permite a introdução das artes nas indústrias de larga escala, ultrapassando dicotomias tradicionais, como “elite/massa”, “arte/entretenimento” ou “cultura superior/cultura popular”.

Para acompanhar as reflexões sobre indústrias criativas, siga a respectiva tag.