Cultural Data Project – o que os dados nos dizem sobre o sector cultural

O tratamento de dados na cultura é essencial para conhecermos o sector e a distribuição dos mais variados recursos (financeiros, programáticos e operacionais). O projecto norte-americano Cultural Data Project é um bom estudo de caso para se fazer algo semelhante em Portugal. O último relatório – “New Data Directions for Cultural Landscape” – também é muito interessante.

Bons grupos sobre indústrias e cidades criativas no Facebook

(23/08/2011) Sou fã do Facebook, por muitos motivos e por este em particular: é uma fonte de informação privilegiada quando bem usada. São os casos dos grupos “de trabalho”, comunidades que partilham informações sobre temas do seu interesse profissional e académico.

A título de exemplo, as indústrias criativas e as cidades criativas são áreas que investigo indirectamente no meu Doutoramento e que já começam a estar bem representadas em blogues de pesquisa e em grupos do Facebook que facilitam a investigação.

Exponho abaixo alguns dos mais dinâmicos

» Creative Cities Lexington

» Creative Cities (British Council) 

» Creative Clusters Networks

» KUT Creative Industries

» Creative Industries KTN

» Indústrias culturais e criativas em Portugal

 

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Jornalismo online – os desafios da experimentação

“Jornalismo online – Os desafios da experimentação”, de Valério Brittos e Aléxon João,  é um artigo aparentemente simples, com mensagens que exigem uma reflexão complexa. Sublinho as seguintes passagens:

“Neste quadro, a experimentação ganha novo papel, essencial em toda atividade econômica, em especial àquelas vinculadas à cultura, como o jornalismo.”

É, de facto, indispensável inovar no jornalismo para vingar. Por outro lado, gostei que os autores usassem a palavra “cultura”, porque, por qualquer razão, há quem pense que o jornalismo não é uma actividade cultural. Não tenho dúvida de que, no seio das indústrias culturais, o jornalismo (ou, melhor, toda a indústria de conteúdos) é a principal actividade e merece ser analisada de três pontos de vista: comunicacional, cultural e económico.

“Qualidade parece ser a palavra-chave nessa era tecnológica, relativizando-se valores seculares do jornalismo, como objetividade, transparência, atualização, veracidade, imparcialidade, fidelidade e isenção, por motivações que passam por condicionamentos econômico-políticos.”

Claro. Sem qualidade, os media online não sobreviverão. E não argumentem com aquelas balelas usadas na televisão, como “o público consome o que lhes dão”. Os leitores não são palermas. Principalmente os que consomem informação (na verdadeira acepção da palavra) online.

“Para isso, é necessário investimento e capacidade de inovar, não o tradicional uso das tecnologias para reduzir o tamanho das redações.”

António Granado di-lo em “Onze Nomes”: com menos, não se pode fazer mais. Eu diria “melhor”.

O artigo está disponível aqui na íntegra.

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O paradigma tecnológico e a construção do conhecimento

“(…) esta mudança digital é sobre muito mais do que novas ferramentas online, maior eficiência, velocidade e marés implacável de informação. A tecnologia mudou a forma como pensamos. A mudança digital é sobre novas formas de trabalho, novas formas de reflexão, novas abordagens para a resolução de problemas e, como consequência, novas formas de construção do conhecimento e partilha.”

A mais recente publicação da LabforCulture, intitulada “Converging Pathways to New Knowledge” reúne “conversas” de personalidades das indústrias criativas sobre a forma como o paradigma tecnológico afecta a construção do nosso conhecimento.

A versão online está disponível aqui.

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Consulta pública sobre o Livro Verde das Indústrias Culturais e Criativas

Decorre até 30 de Julho a consulta pública online sobre o Livro Verde das Indústrias Culturais e Criativas (“Unlocking the potential of cultural and creative industries”), promovida pela Comissão Europeia. A consulta, aberta a todos os cidadãos e organizações, tem como objectivo reunir perspectivas de vários assuntos relacionados com estes sectores que têm cada vez maior peso económico na Europa.

O documento pode ser lido aqui.

As contribuições podem ser dadas aqui.

 

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A cultura e o (meu) sonho

Sempre que reflicto sobre a importância da cultura e da criatividade nas nossas vidas, acabo sempre por chegar à mesma conclusão. Não estou a falar do contributo para o PIB ou da importância para a educação das pessoas. Refiro-me a um poder mais íntimo, privado, que os bens culturais exercem sobre nós – a capacidade de nos fazer sonhar.

Um livro, um filme, uma peça de teatro ou uma exposição que nos devolva a vontade de ler, ver, experienciar, de sonhar ou que, mais importante que tudo, nos devolva a “capacidade” de sonhar é das experiências mais bonitas e gratificantes que se pode ter.

De todos os traços comuns às indústrias culturais e criativas, a capacidade de fazer sonhar é, para mim, a mais importante, sem dúvida.

Bons sonhos.

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Como é que uma obra de arte vale 74 milhões de euros?

A escultura em bronze “O Homem Andante”, de Alberto Giacometti, foi vendida recentemente em leilão por 74,4 milhões de euros, batendo o recorde mundial. Embora seja uma obra de arte emblemática deste artista suíço, a verdade é que foi vendida por um preço três vezes superior à estimativa mais elevada. E a questão que se põe é óbvia: que critérios levam a que uma obra de arte valha tanto dinheiro, em contexto de crise mundial? Melanie Clore, da Sotheby´s (empresa responsável pelo leilão), dá cinco: as condições em que a obra se encontra (neste caso, muito boas); a reputação do artista (Giacometti é considerado um dos escultores mais importantes do século XX); a raridade (a escultura provém de uma edição original de seis peças); a competitividade (houve licitadores de pelo menos 30 países no leilão da Sotheby´s); por fim, a qualidade do investimento (segundo a Sotheby´s, é sólido).

O artigo original pode ser lido na íntegra aqui.

“A. M. Lisboa: Plataforma Transcultural para o séc. XXI” ? Porquê acreditar na nova Agência para as Indústrias Criativas?

lisboaA agência para gerir uma plataforma de indústrias criativas na Área Metropolitana de Lisboa vai ser lançada amanhã, dia 12, na Culturgest, tal como já tinha referido há uns dias aqui. Por enquanto denominada “Agência para as Indústrias Criativas” – dado que o nome só será revelado amanhã –, este projecto, promovido pelo galerista Luís Serpa, tem como objectivo principal criar uma plataforma estratégica autónoma para implementar projectos nas áreas das indústrias criativas (já abordei o conceito aqui e aqui). O siteLisboa Transcultural” contém todas as informações sobre o mesmo.

 

A apresentação formal da Agência para as Indústrias Criativas será feita, amanhã, terça-feira, na Culturgest, entre as 09h30 e as 11h00. As senhas para assistir terão de ser levantadas 30 minutos antes. Esta será apenas a primeira de uma maratona de conferências e mesas-redondas que decorrerá até ao dia 29, no mesmo espaço.  

 

Feitas as apresentações, tive oportunidade de estar na apresentação do projecto aos jornalistas, no passado dia 07 de Maio – aliás, foi mais uma conversa entre todos os presentes do que uma apresentação formal – , encontro que gerou várias notícias, como esta que pode ser lida aqui.

 

Por isso, o que se segue é mais uma reflexão pessoal do que propriamente uma abordagem jornalística (dado que esta já foi cumprida quase integralmente e sê-lo-á durante estes dias).

 

O que me faz acreditar nesta Agência para as Indústrias Criativas?

 

  • Foi, é e será um projecto pensado e implementado continuamente, com um grupo de reflexão permanente, com pessoas de diferentes backgrounds, que ajudem a fixar conceitos e formas de pensar a trabalhar. Fazem parte deste grupo nomes como Vivien Lovell (UK), Scott Burnham (CAN), Justin O’Connor (AUS), Dingeman Kuilman (NL), Andrew Carmichael (UK), Piers Roberts (UK), Pedro Costa, Jorge Gaspar, Catarina Vaz Pinto e Luís Serpa (PT), moderado por Michael DaCosta Babb (UK), cuja sapiência e humildade me cativaram profundamente.
  • Um dos objectivos da Agência é aliar a criatividade ao mercado e alargar a própria noção de cultura, aspecto pela qual me debati precisamente na minha tese de mestrado. Aliás, Luís Serpa fala de uma “Lisboa transcultural” e não “intercultural” ou “multicultural”, conceitos estes já ultrapassados e redutores.
  • A Agência acredita que não é capaz de fazer tudo sozinha e aliou-se, nas várias áreas, a parceiros estratégicos.
  • O seu lema é “Arte, Tecnologia e Empreendedorismo” e os 3 C´s “Conhecimento, Competitividade e Consumo”.
  • Por último, fixei estas declarações de Luís Serpa, cruciais, do meu ponto de vista, para o sucesso deste projecto: “Há que acabar com a ideia do ‘subsísio’”, “A nossa referência identitária não é a língua, mas o território”, “O sistema fiscal é essencial para as indústrias criativas”, “É essencial compatibilizar a arte, a tecnologia e o empreendedorismo, isto é, a sua pertinência comercial e internacional”, “As indústrias criativas necessitam de condições de desenvolvimento de negócio” e “Os artistas têm de deixar de olhar para o mercado com desconfiança”.

 

A.M. Lisboa: Plataforma Transcultural para o séc. XXI?

lisboaE a propósito de Cultura e Economia, na sequência da nova estratégia comunicativa da Feira do Livro de Lisboa, visitem o site Lisboa Transcultural, um novo projecto do galerista Luís Serpa, relacionado com as indústrias culturais e criativas e as respectivas potencialidades da Área Metropolitana de Lisboa como plataforma transcultural para o século XXI,  de que falarei muito em breve aqui.

Forum for Creative Europe IV – Como subsidiar a cultura?

john-howkinsJohn Howkins, especialista em Economia Criativa,  afirma que a melhor forma de subsidiar organizações culturais e os próprios artistas é ajudando ambos a serem auto-suficientes, dando-lhes formação sobre o mercado, o seu público e consumidores. Numa época de crise, “é completamente errado” tirar dinheiro à arte, à cultura e à imaginação das pessoas porque se trata de qualidade de vida; no entanto, há que dotar os artistas de meios para se tornarem pessoas de negócio e conhecerem as leis de mercado, isto porque o conflito tradicional entre ser artista e ser um homem de negócios está, na opinião deste professor, completamente ultrapassado.

 

O vídeo da entrevista pode ser visto aqui.

Forum for Creative Europe III – “Contra o fetichismo da criatividade”

gottfried_wagner_profile“Creativity is a beloved non-word, an almost messianic formulation; one of those public screens onto which everyone can project almost everything. It is a term coined to offer hope and positive expectation; a catchword to employers and a must in job application letters. Invoking it is de rigueur for ‘alternative minds’ rebelling against bourgeois ‘virtues’. And now it has also become an essential part of the EU-speak of the Lisbon Agenda.”

 

Tornou-se a criatividade o novo fetiche? Gottfried Wagner, director da European Cultural Foundation e presente no Forum for Creative Europe, aponta no artigo “Against the fetishising of creativity” algumas contradições que norteam a discussão da criatividade, esperando que “o fetichismo não vença a racionalidade”. Em primeiro lugar, é necessário criar um discurso da criatividade que seja positivo para “todos” – nações, sociedades e indivíduos -, não privilegiando apenas a sociedade ocidental; em segundo, desenvolver novos modelos organizacionais que controlem a ganância criativa e o sector privado; em terceiro, aprofundar soluções criativas para o uso sustentável da energia e da produção; por último, poupar em vezs de desperdiçar, competir sem arruinar a interdependência, num esforço de responsabilidade mútua e cidadania.

 

O artigo original está disponível aqui.

Forum for Creative Europe II – Transmissão em directo

forum2Está a ser transmitido em directo o “Forum for Creative Europe” a partir do site oficial.

 

Da parte da manhã, o painel subordinado ao tema “Artes, Culturas e Ecologias Criativas” reuniu Michael Hutter, Director da Unidade de Investigação em “Fontes Culturais de Inovação” da Universidade Técnica de Berlim, David Throsby, professor de Economia da Universidade Macquarie (Sydney), John Holden, professor de Políticas Culturais, John Howkins, chairman da BOP Consulting e Nina Obuljen, secretária de Estado do Minisério da Cultura da República da Croácia.

 

O contributo da arte e da cultura para a prosperidade das nações, bem como os conceitos de economia criativa e ecologias criativa, estiveram em discussão durante quase duas horas.

 

À tarde, no mesmo painel, serão discutidos aprofundadamente os conceitos de indústrias criativas e classe criativa e o balanço da sua implementação em alguns países, para o qual se contará com a intervenção de Richard Florida, a partir das 15h30.

 

Amanhã, merecem destaque os painéis “Sociedade Civil na Era Criativa”, “Cidades Criativas”, ambos das 10h30 às 12h00, e “Criatividade e Skills”, das 12h15 às 13h30.

“Criatividade é coisa de meninos. Não resolve a crise.”

theeggTenho acompanhado regularmente o siteCriar2009.gov.pt” – para quem não sabe é a paragem oficial portuguesa do ano europeu da criatividade e inovação, com destaque para a forte presença do twitter (a propósito do twitter, não deixem de acompanhar as últimas reflexões de Rogério Santos sobre esta ferramenta social, as quais partilho na totalidade quando se refere ao seu uso infeliz para aspectos mundanos).

 

Regressando ao tema deste post, no seu último artigo de opinião publicado no site, Jaime Quesado cita Charles Leadbeater – “Inovação, tal como o simples acto de nadar, não se faz por decreto, mas antes indo para o terreno, aprendendo com os factos e com os resultados” – para reforçar, mais uma vez, a importância da criatividade e da classe criativa no nosso país (para entenderem o significado da palavra “reforçar”, terão de ler os restantes artigos deste autor no mesmo site).

 

Ora, num almoço recente estava eu a falar deste site e da importância das indústrias criativas a uma pessoa respeitada do meio económico-social quando, em tom de enfado, ela me diz: “A criatividade é coisa de meninos. Não resolve a crise”. Infelizmente, esta é uma afirmação paradigmática do tecido empresarial português, reveladora de um total desconhecimento destes conceitos. “Criatividade” é mais do que uma “série de rabiscos”, tal como a “classe criativa” não é de todo uns “meninos com rastas e ideias utópicas”. Ou será Portugal um país fechado num preconceito tal que não vê os exemplos dos seus vizinhos britânicos nos quais as indústrias criativas têm cada vez mais um peso considerável no PIB (e, sim, muitas desenvolvidas por génios com rastas e brincos no nariz)?

 

O que é, afinal, a criatividade?

A noção de artista como génio criativo tem a sua origem no Renascimento, embora tenha sido consolidado no século XVIII; nesta altura, a criatividade começou a ser aplicada não apenas a Deus, como ao artista e ao seu trabalho. Kant definiu-a como a habilidade mental necessária para a produção de arte, uma capacidade caracterizada pela originalidade, em oposição à imitação.

Hoje, a criatividade ultrapassa o campo das artes e do artista. Já não é vista como uma capacidade rara, mas presente em todas as pessoas, isto é, todos temos um potencial criativo, que poderá ser ou não desenvolvido.

A criatividade envolve avaliação crítica; é comum quer na ciência e na matemática quer nas artes, embora estas sejam vistas como ímpares no desenvolvimento da criatividade e inteligência emocional; é multidimensional, envolvendo conhecimento emocional, intelectual, social, cultural, espiritual, moral, político, tecnológico e económico; não é simplesmente uma divagação da mente, envolvendo conhecimento e competências.

A criatividade está muito ligada à inovação, à capacidade de ver além do que está desenvolvido, daí que implique direitos de autor. Para John Howkins, a era da informação está a ser substituída pela era da criatividade, onde precisamos de “informação, mas também de sermos activos, espertos e persistentes em desafiar essa informação. Precisamos de ser originais, cépticos, argumentativos, frequentemente positivos e ocasionalmente negativos – numa palavra, criativos”.

Ser criativo é, na versão mais simples, “ter uma ideia nova”. Ter uma ideia nova implica que esta seja pessoal, original, útil e que tenha significado. No entanto, a criatividade no contexto das indústrias criativas implica um valor comercial.

Todas as pessoas são criativas, mas o facto de qualquer um poder cozinhar um ovo e pensar não significa que se torne um cozinheiro ou um intelectual. O mesmo se aplica à criatividade: todas as pessoas a têm, mas apenas algumas retiram valor económico e social dela, pelo seu trabalho ou talento. A função social da criatividade é atingida não só pelos indivíduos “a serem criativos”, mas por factores, como o capital, as infra-estruturas, os mercados, os processos de larga escala, os direitos de propriedade intelectual, que organizam a criatividade. Neste sentido, os artistas, os músicos, os designers e os escritores são os beneficiários mais óbvios desta organização social da criatividade, mas não determinam o seu formato ou a sua estrutura, no seu todo.

Indústrias Criativas em John Hartley e em Stuart Cunningham

istock_000005162457mediumPara John Hartley (2005:5), as indústrias criativas combinam as artes criativas com as indústrias culturais – o exemplo mais flagrante é o entretenimentos nos media. As primeiras descrevem, neste sentido, “a convergência conceptual e prática das artes criativas (talento individual) com as indústrias culturais (escala de massa), no contexto das novas tecnologias dos media, dentro da designada economia do conhecimento e para uso de cidadãos e consumidores interactivos”. Tomam, assim, “talentos criativos tradicionais nas áreas do design, da representação, da produção e da escrita, e combinam-nos com técnicas de produção e distribuição dos media (para escala) e com novas tecnologias interactivas (para personalização) de forma a criar e distribuir conteúdo criativo pelo sector de serviços da nova economia” (2004: 143). O método de produção não é industrial nem normalizado, mas, sim, baseado na inovação e em projectos – aqui John Hartley diferencia-se do conceito de indústrias culturais.

É importante para este autor o facto de as indústrias criativas combinarem as artes criativas com as indústrias culturais, porque esta mudança permite que as artes integrem as indústrias de larga escala como as de media e entretenimento, ultrapassando as velhas dicotomias de elite/massa, arte/entretenimento, patrocínio/comercial, alto/trivial.

As indústrias criativas fornecem produto de conteúdo para a nova economia do conhecimento, onde se sente mais o impacto social do consumo das novas tecnologias e dos meios interactivos, devido ao facto de as pessoas estarem interessadas no conteúdo e não nas tecnologias em si. Neste âmbito, John Hartley afirma que o conteúdo criativo ultrapassa os produtos de lazer e entretenimento, alargando-se aos empreendimentos comerciais, ou seja, o conteúdo criativo passará a ser o “requisito central, quer a aplicação seja um banco, ara uma instituição educativa quer para o ramo do entretenimento, ou quer o utilizador esteja no modo sit up ou sit back” (2004: 143).

O trabalho intelectual e criativo cria uma série de bens não materiais, como invenções técnicas, know-how, marcas, desenhos, criações literárias e artísticas. As disciplinas criativas existentes encontraram, com as novas tecnologias, aplicações comerciais: por exemplo, a animação e a escrita criativa encontraram uma nova aplicação no desenvolvimento de jogos de computador, que evoluíram eles próprios para jogos interactivos e com múltiplos jogadores. Assim, a estimulação deste sector assenta cada vez mais nas empresas criativas que fornecem conteúdos constantemente actualizados a indústrias tecnologicamente avançadas.

Quanto à mão-de-obra criativa, esta assenta em pequenas e médias empresas e em talento criativo em regime freelancing, ou seja, em projectos de pouca duração. As necessidades, neste contexto, concentram-se em grupos interdisciplinares, equipas flexíveis e muito permeáveis em vez de indústrias verticalmente integradas de larga escala.

Stuart Cunningham, por sua vez, segue as directrizes da Unesco, mas faz uma inter-relação entre vários conceitos: as indústrias criativas são simultaneamente indústrias culturais, pela sua representação simbólica, auto-conhecimento e crítica no mundo globalizado; indústrias de serviços, porque transmitem informação e entretenimento num ambiente económico; e indústrias de conteúdos / conhecimento porque requerem níveis significativos de investigação e desenvolvimento para continuarem a inovar (2003: 1).

Para este autor, a definição de indústrias criativas corre o risco de ser demasiado ambígua e ambiciosa ao estabelecer uma ligação entre treze sectores*. Pode diferenciá-las o facto de terem origem no talento e criatividade individuais e o “potencial de gerar emprego e riqueza através da exploração da propriedade intelectual” (2003: 1).

As indústrias criativas funcionam como catalisadores de outros sectores económicos, pelo que são transectoriais (sendo moldadas pela ligação entre as indústrias de media e sectores cultural e das artes); transprofissionais (moldadas pela união de diversos domínios de empenho criativo) e transgovernamentais (porque as políticas envolvem várias áreas). Num ensaio intitulado “Rising Tide of Innovation” (2006), dá exemplos daqueles que pertencem a uma classe criativa, no contexto australiano:

·         directores, designers de moda, cinéfilos, actores e staff envolvido na criação de filmes;

·         os webdesigners que trabalharam no sector financeiro e que mudaram completamente a comunicação com o público (sites, materiais publicitários e interfaces);

·         escritores, romancistas, redactores técnicos e criativos, jornalistas, poetas e argumentistas;

·         artistas, bloggers e webmasters.

 

* As 13 indústrias criativas, definidas e mapeadas num documento governamental inglês intitulado “Creative Industries Mapping Document”, em 1998, valem 7,3% da economia e empregam 1 milhão de pessoas e mais 800 mil em ocupações criativas.

Incluem: arquitectura; mercado de artes e antiguidades; artes performativas e entretenimento; filmes, vídeos e outras produções audiovisuais; design gráfico; indústria editorial; moda; música ao vivo e gravada; ofícios; publicidade; software educacional e de lazer; difusão através da televisão, rádio e internet; escrita e publicação.

Bibliografia

CUNNINGHAM, Stuart (2006) – The Rising Tide of Innovation. In  http://idash.org/pipermail/my-ci/2006-August/000118.html

CUNNINGHAM, Stuart (2003) – From Cultural to Creative Industries: Theory, Industry and Policy Implications. In http://eprints.qut.edu.au/archive/00000588/01/cunningham_from.pdf

HARTLEY, John (2005) – Creative industries. Malden, MA, Oxford e Victoria: Blackwell.

Indústrias culturais – A Perspectiva de David Hesmondhalgh

9781412908085As indústrias culturais passaram por grandes transformações desde os anos 80, revelando uma crescente importância nas sociedades e na economia:

·   já não são consideradas como “actividades secundárias”, estando no centro da acção económica de muitos países;

·   a sua organização mudou radicalmente, pois as empresas mais fortes actuam em diferentes indústrias culturais e não apenas numa específica, como a produção televisiva ou a edição;

·   ao mesmo tempo, crescem as pequenas empresas na área da cultura, estabelecendo-se relações e parcerias entre pequenas, médias e grandes empresas;

·  os produtos culturais circulam além-fronteiras;

·    os conteúdos são marcadamente híbridos, misturando imagens, som e texto;

·   houve uma proliferação de novas tecnologias de comunicação, como a Internet e novas aplicações das tecnologias existentes;

·   a forma como as indústrias culturais entendem os seus públicos mudou, havendo uma preocupação nos inquéritos de consumo, no marketing cultural e na caracterização dos nichos de mercado;

·  há uma crescente preocupação com as políticas culturais e com aquelas relacionadas com os direitos de autor;

·  as audiências e os hábitos culturais são cada vez mais complexos;

·  os textos sofreram alterações radicais, com novos estilos, inserção crescente da criatividade e de materiais publicitários.

Por que são importantes as indústrias culturais? David Hesmondhalgh justifica com três ordens de razão: porque criam e fazem circular textos; porque gerem e fazem circular a criatividade; porque são agentes de mudanças económicas, sociais e culturais. (2007: 4-7).

 

1.        As indústrias culturais criam e fazem circular “textos”

David Hesmondhalgh afirma que, mais do que qualquer tipo de produção, as indústrias culturais criam e divulgam produtos, que o autor designa de textos, que influenciam a nossa percepção do mundo. Os filmes, a televisão, a rádio, a música e os videojogos fazem representações do mundo que contribuem para aquilo que somos, fantasiamos e sentimos; constroem a nossa identidade enquanto mulher, homem, africano, português, europeu, americano, homossexual, punk, etc.

Posto isto, as indústrias culturais têm uma influência decisiva na nossa vida e, consequentemente, nas sociedades contemporâneas. Importa referir que a maior parte dos textos é produzida por grandes empresas que têm em vista o lucro, o que levanta questões sobre as necessidades do público versus as aspirações económicas. Aliás, há uma grande concorrência entre as indústrias culturais, particularmente entre grupos de comunicação, o que influencia decisivamente os produtos culturais que são veiculados.

 

2.        As indústrias culturas gerem e fazem circular a criatividade

Segundo este teórico norte-americano, as indústrias culturais preocupam-se com a gestão e venda da criatividade simbólica. Ao longo da História, a arte foi sendo considerada uma das formas mais nobres da criatividade humana. Ora, a criação de histórias, músicas, imagens, poemas, argumentos, reportagens, etc., envolve um tipo particular de criatividade – a manipulação de símbolos, com os propósitos de entreter, informar e esclarecer. Daí que o autor prefira chamar a estes trabalhos “criatividade simbólica” (em vez de arte) e criadores simbólicos (em vez de artistas). Importa relevar que os jornalistas também são, naturalmente, criadores simbólicos, uma visão importante para compreender os capítulos que se seguem.

Estes criadores simbólicos são os criadores dos textos de toda a espécie das indústrias culturais e estes não existiriam sem eles, mesmo que as indústrias se caracterizem pela reprodução, distribuição e marketing. A forma como as indústrias culturais organizam e divulgam a criatividade simbólica reflecte algumas injustiças e ambivalências presentes nas sociedades contemporâneas, principalmente na forma precária como os criadores simbólicos trabalham e a dificuldade em arranjar audiências para os seus textos.

 

3.        As indústrias culturais são agentes de mudanças económicas, sociais e culturais

Não há dúvida de que as indústrias culturais são fontes de riqueza e emprego em muitas economias: basta pensar na importância da indústria cinematográfica e discográfica nos Estados Unidos da América, no papel dos jornais e das revistas em todo o mundo… O advento das marcas (Coca-Cola, Nike, Disney, entre milhões de outras) fez crescer as indústrias culturais, pela publicidade, pelos filmes, pela influência na forma como entendemos o mundo. As sociedades modernas são sociedades do conhecimento e da informação e isso basta para provar o papel que as indústrias culturais têm na economia e na cultura.

Sobre a definição de indústrias criativas – I parte

industrias_criativas1O conceito de “indústrias criativas” tem menos de 20 anos. Teve origem nos anos 90, na Austrália, tendo sido desenvolvido pela Creative Industries Taskforce, criada em 1997, no Reino Unido, durante o Governo de Tony Blair. Actualmente, as indústrias criativas têm um peso considerável na taxa de crescimento de alguns países, como a Inglaterra, a Nova Zelândia, a Austrália, a Holanda ou a Dinamarca, para os quais os sectores cultural e criativo geram mais de 8% dos postos de trabalho.

As indústrias criativas são “aquelas que têm origem na criatividade, capacidade e talento individuais, e que potenciam a criação de riqueza e de empregos através da produção e exploração da propriedade intelectual” (Creative Industries Mapping Document, 1998). Nesse sentido, incluem as seguintes áreas:  arquitectura, mercado de artes e antiguidades, artes performativas e entretenimento, cinema, vídeo e outras produções audiovisuais, design, moda, música, ofícios, património, publicidade, software educacional e de lazer, televisão, internet, rádio, escrita e publicação.

Para John Hartley, as indústrias criativas combinam as artes criativas com as indústrias culturais, mudança que permite a introdução das artes nas indústrias de larga escala, ultrapassando dicotomias tradicionais, como “elite/massa”, “arte/entretenimento” ou “cultura superior/cultura popular”.

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