A criatividade é emocionante. O Algarve não foi.

Diz Belén, coolhunter e autora do blogue Coolnalism, que a criatividade e as férias têm em comum serem, ambas, emocionantes. Porém, a primeira parte das minhas férias não foi nem criativa nem (por isso) emocionante.

Esta incapacidade de descobrir o lado criativo e emocionante do Algarve remonta à minha infância (e desta culpa não se safam os meus pais). Enquanto os meus colegas da escola rumavam ao Algarve, eu descobria o Gerês (que saudades do parque do Vidoeiro), as cidades nortenhas, os restaurantes soberbos que o meu avô conhecia em quase todos as vilazinhas; enquanto os meus amigos desfrutavam das águas mornas algarvias, eu travava batalhas com as praias da Ericeira e arredores.

No entanto, esta lacuna geográfica fez-me, a certa altura, pedir aos meus pais para passarmos férias no Algarve. E o local eleito (há 17 anos, mais ou menos) foi a… Quarteira. Nada emocionante, nada criativo, mesmo que, na altura, ainda não soubesse definir “criatividade”.

Outra infeliz recordação que guardo do Algarve tem que ver com a viagem de finalistas, o ex-libris da escola secundária. Enquanto os colegas que estudavam “Francês” queriam ir a Palma de Maiorca, como todos os finalistas, nós, os de “Alemão”, lembrámo-nos de ir a Berlim, lá está. Desde canções de Natal em alemão para angariar fundos – ainda hoje sei cantar “O Tannenbaum” – a baile de máscaras no Carnaval a tentar cobrar entradas, tentámos tudo. No fim, não havia dinheiro para ir a Berlim e já não havia vagas para a viagem de finalistas. Fomos a Lagos (e com as professoras de Alemão a reboque).

Quando comecei a ter o meu próprio dinheiro para férias, fui escolhendo sempre cidades estrangeiras e o Algarve foi, assim, ficando de lado. Fui lá algumas vezes, claro, mas nunca em estado de férias exclusivo.

Por isso, neste ano, resolvi passar uma semana no Algarve (Carvoeiro), a fazer o menos possível (“pack hotel + piscina + praia + livros”). Não foi a minha primeira escolha, claro, mas o dinheiro não chegava para ir a Praga.

Muitos turistas, muita praia, pouca areia para pôr a toalha, muito sol, muito calor, pouca oferta cultural, pouca comida decente… Descobri também que o “pack hotel + piscina + praia + livros + não fazer nada” não resulta comigo. O ponto alto dos dias era mesmo quando ia descobrir vilazinhas ou ficava na esplanada à noite a observar as pessoas.

No entanto, para não pensarem que sou uma esquisita nórdica que só gosta dos países frios, partilho convosco (o que posso partilhar) o melhor dessa semana:

» a dourada deliciosa que comi no restaurante da praia da Nossa Senhora da Rocha;

» a espetada de lulas também deliciosa do restaurante “Novo Velho”, em Ferragudo (a própria vila é amorosa. Obrigada, Cláudia, por ma mostrares);

» a praia da Marinha (uma das mais bonitas do Algarve, sem dúvida);

» a praia do Alvor, à tardinha, e a fila de esplanadas fora da confusão;

» os três livros que pude ler de um só fôlego. Comprometi-me a não levar nenhum de jornalismo, apenas boa ficção de autores portugueses – Gonçalo M. Tavares, Patrícia Reis e Ana Teresa Pereira (esta nunca deixa de me surpreender);

» as revistas de que pude desfrutar sem pressas (a Monocle continua no topo, a “V” tem uma aplicação óptima para o iPad e a Project Mag, desenhada exclusivamente para o iPad, foi uma descoberta interessante).

 

Allgarve – uma experiência que não marcou assim tanto.

Votar ou não votar no Sócrates por ser “fashionista”

(25/04/2011) Estava eu a beber café numa das minhas pastelarias preferidas da Avenida de Roma quando apanho a conversa (que reproduzo o mais fielmente possível) de dois rapazes já com idade de votar a conjecturar sobre o estilo de José Sócrates…

«Ya, li na Net que o Sócrates vai à loja mais cara de Beverly Hills para se vestir», diz um.

«Isso de caro é muito relativo…», sublinha o outro.

«Epá, acho que uma camisa custa 500 dólares ou assim», responde.

«Oh, estes ténis custaram 500 euros», riposta o outro.

Viro-me um pouco para tentar estabelecer uma correspondência das vozes com as personagens. Não consigo ver os ténis nem sequer as caras deles, porque parecem ter sido engolidas pelos cabelos.

Continuam…

«Até acho que isso é fixe, ao menos faz boa figura lá fora»

«Sim, ele é pintas, é. O gajo tem estilo»

«E é nos momentos de crise que o pessoal tem te ter mais estilo»

«Tem feito muita ****, mas acho que vou votar no tipo»

 

Não querendo tornar estes rapazes numa amostra representativa dos jovens, confesso que ainda não tirei isto da cabeça. Alguém me pode ajudar a dormir melhor hoje? Vamos lá reflectir um pouco sobre os pontos positivos e negativos desta conversa…

1. É POSITIVO os jovens lerem na Net, mas fui à procura do artigo em questão e acabei por perceber que esse boato tem origem num artigo do jornal «i», de 2009, e que foi agora recuperado em época pré-eleitoral sem contextualização, assumindo que isso se passa agora (NEGATIVO).

2. É POSITIVO os jovens terem noção do valor do dinheiro, mas fiquei sem saber se achavam que uns ténis de 500 euros eram, afinal, caros ou não (NEGATIVO).

3. É POSITIVO os jovens entenderem que a diplomacia é importante e que uma boa apresentação faz a diferença, mas será que concluem que ter estilo é vestir roupa “cara” (NEGATIVO)?

4. É POSITIVO os jovens saberem que o país está, de facto, a enfrentar uma crise, mas acabei por não perceber a afirmação “é nos momentos de crise que o pessoal tem de ter mais estilo” (POSITIVO ou NEGATIVO, consoante a interpretação).

5. É POSITIVO os jovens terem vontade de votar, mas Sócrates vai receber o voto daquele jovem por ter estilo, apesar de ter feito muita **** (NEGATIVO)?

 

Crenças pessoais à parte, e apesar de seguir a indústria da moda e das tendências de perto, parece-me que usar o estilo como sustentação de um voto é, no mínimo, uma atitude irreflectida. No entanto, teorias do jornalismo já provaram que não é assim tão invulgar. E as assessorias de imagem também.

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Instantes da Holanda – o seu ícone nacional

A bicicleta é, sem dúvida, o meio de transporte mais utilizado na cidade de Amesterdão. São, literalmente, centenas de pessoas que, a qualquer hora do dia, mas especialmente entre as 08h e as 10h da manhã e as 16h e as 18h, partilham nas suas bicicletas as vias com os carros ou as ciclovias e os passeios com os peões. A cultura da bicicleta está tão intrusada no dia-a-dia que é comum os holandeses andarem com os seus filhos, cães ou colegas “à pendura” a mais de 20 km/hora.

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Como objecto pessoal, estes meios reflectem geralmente o estilo ou o status da pessoa que o conduz, embora muitos holandeses optem por uma bicicleta mais rudimentar, dado que são roubadas por ano, só na cidade de Amesterdão, mais de 50 mil bicicletas (num universo de 500 mil).

Imaginem se fossem automóveis…

Saramago

Eu, o meu pai e Saramago

Quando li pela primeira vez Saramago, ainda tinha na minha mesa-de-cabeceira os livros da colecção “Uma Aventura”. O mesmo aconteceu com outros senhores da literatura, como Eça de Queirós, David Mourão Ferreira ou José Cardoso Pires. A culpa foi do meu pai.

O meu pai sempre foi (e é) um bebedor de livros. E eu, com os meus anos ainda de escola preparatória, sempre que via o meu pai com um livro nas mãos, perguntava-lhe se era giro. O meu pai respondia “Sim, mas ainda não é para a tua idade”. Ora, naturalmente que, mal o meu pai pousava o livro, lá ia eu lê-lo. (Isso também aconteceu com alguns romances que não eram mesmo para a minha idade, como o “O Amante de Lady Chatterley” de D. H. Lawrence, mas isso é outra história.)

Por isso, curiosamente, Saramago está relacionado com a minha infância, uma época muito feliz. Se não gostei tanto de “Memorial do Convento”, “Ensaio sobre a Cegueira” e “Todos os Nomes” são certamente dois dos livros da minha vida. Também por ter tido o primeiro contacto com o escritor ainda nova, li-o despojado de quaisquer conotações marxistas, comunistas, religiosas, etc. E, para mim, Saramago, Nobel da Literatura em 1998 (não convém esquecer), é um grande escritor da língua portuguesa que faleceu. Ponto final.

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O jornalismo digital não é um parente pobre do jornalismo

O jornalismo digital é isso mesmo – “jornalismo”. Por várias ordens de razão, o jornalismo digital tem sido, até agora, visto como um parente pobre do jornalismo. Uma delas é, precisamente, a proliferação de blogues e sites de conteúdos; contudo, os leitores não podem confundir estes registos com órgãos de comunicação on-line; eu sou jornalista, mas este blogue não é um órgão de comunicação social, é um registo pessoal daquilo que considero interessante e útil para os meus leitores, de referências que partilho (e considero que devem ser promovidas) sobre jornalismo cultural, indústrias culturais e criativas, que constituem os temas da minha investigação académica e pessoal, e de temas que acho que devem vir ao público, mas que não têm espaço nos meios de comunicação social, por vários motivos, desde a contingência do espaço aos compromissos publicitários.

Penso que os (bons) blogues e as redes sociais são essenciais na contemporaneidade e, de facto, alguns dos primeiros aproximam-se do jornalismo quer pela sua natureza quer pelos seus autores. Porém, ao contrário dos meios de comunicação online, não são obrigados a cumprir uma linha editorial nem o código deontológico do jornalismo. Infelizmente, alguns blogues são meros instrumentos de publicidade e marketing. E é necessário ter presente esta fronteira entre jornalismo digital e conteúdos on-line para que o primeiro possa usufruir da extrema importância que lhe deve ser dada. Assumo, aqui e perante os meus leitores, que sou fã convicta das revistas digitais!

Este parêntesis serviu de introdução a uma entrevista (muito simples, mas muito rica em mensagem) que reproduzo abaixo e na qual me revejo (quase) na totalidade. Foi feita a José Luis Orihuela, professor universitário e autor do reconhecido blogue “eCuaderno”, e publicada no jornal El Impulso (venezuelano).

¿Cómo visualiza el periodismo digital en unos años especialmente en aquellos lugares donde se cercena la libertad de expresión?

Para entender el futuro del periodismo lo mejor es quitarle los adjetivos. El periodismo siempre será crítico con el poder y celoso guardián de la libertad. Otra cosa es la propaganda, que aunque se haga en blogs o en Twitter, sigue siendo propaganda.

¿Qué protagonismo ha tenido la Web 2.0 en el nuevo proceso comunicacional impuesto en el mundo con relación a la libertad de expresión o prensa?

La web social consiste en la apropiación por parte de la gente corriente de las herramientas de comunicación disponibles en línea para realizar actividades de publicación autogestionada, pero no son una manifestación del periodismo. En cualquier caso, la expresión popular a través de internet está mostrando los límites cada vez más evidentes de los intentos de prolongar sistemas de control de la información anteriores a la era digital.

¿El periodismo digital desplazará finalmente a los medios tradicionales?

El periodismo se hace en medios. Los nuevos medios no desplazan a los viejos, sólo les hacen cambiar.

¿Cuáles son las ventajas y desventajas del periodismo electrónico?

Insisto en que el periodismo no es digital, ni electrónico, ni telefónico: es periodismo. El ejercicio del periodismo en medios digitales tiene las ventajas derivadas del potencial comunicativo de las plataformas digitales: interactividad, multimedialidad e hipertextualidad. La principal desventaja deriva de la nueva relación que se establece con el tiempo. El tiempo real está sustituyendo a la periodicidad y está eliminando buena parte de la reflexión asociada a los procesos editoriales tradicionales.

Recomiende algunas páginas web que usted considere sean muy completas y entren en la categoría de los verdaderos medios electrónicos

Algunos de los medios que lo están haciendo muy bien en la red son: la BBC, el Guardian, el New York Times, la CNN y el National Geographic. En español destaco: Clarín y La Nación de Argentina, El Comercio de Perú, El Mercurio de Chile, El Tiempo de Colombia y Milenio de México.

¿Cuál es el impacto de las redes sociales en la sociedad actual?

En los países más desarrollados las redes sociales ya se han convertido en una parte de la vida y de la cultura cotidiana de la gente, igual que la electricidad, el agua corriente o la telefonía. Los medios sociales están cambiando no sólo los modos en los que nos relacionamos con los demás, también los negocios, la educación y la política.

Desde su punto de vista, ¿Qué es más completo par un periodista y un ciudadano común: utilizar Facebok, blog, Twitter, podcast?

Las necesidades de comunicación para un periodista y para un ciudadano común pueden ser bastante diferentes. Un profesional de la información tiene que utilizar todos los medios a su alcance para monitorizar, editar y distribuir información. A un ciudadano común le puede bastar con una red social para resolver sus necesidades de comunicación a distancia.

¿En qué consiste la revolución de los blogs?

Los blogs fueron el comienzo de lo que hoy llamamos la web social o web 2.0, una evolución en la historia de internet por medio de la cual la gente corriente pudo comenzar a publicar todo tipo de contenidos a escala global, en tiempo real y sin editores.

¿Cómo ve un experto en periodismo digital el uso de la Web 2.0 en Venezuela? Se utiliza con el propósito para el cual fue creada?

Por lo general, las tecnologías de la comunicación no se utilizan nunca para el propósito con el que fueron creadas. Afortunadamente los usos sociales de la tecnología son mucho más ricos, innovadores y revolucionarios que las prescripciones de la industria. En Venezuela, como en Cuba y otros países en los que la libertad de expresión está seriamente amenazada o directamente cercenada, la web social se ha convertido en el gran pulmón informativo que permite que los ojos del mundo conozcan la realidad a pesar de la voluntad de los gobernantes

¿Qué tan amplia es la libertad de prensa en la internet?

Según Reporteros sin Fronteras, en su Informe Depredadores 2010, existen al menos 40 países, organizaciones o jefes religiosos que atacan directamente a los periodistas. Las amenazas a la libertad de expresión, libertad de prensa y libre circulación de información y bienes culturales son uno de los mayores desafíos que enfrentan nuestras sociedades a nivel global.

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As artes e ofícios portugueses estão de luto

Era presidente da Federação Portuguesa de Artes e Ofícios e da Associação de Artesãos da Região do Norte, designer e um grande, grande amigo. Os criadores portugueses devem-lhe muito e merece ser lembrado pela sua entrega total (a troco de poucas horas de sono, muito tabaco, porventura fatais para o seu coração, e um ordenado injusto) às artes e ofícios portugueses. Miguel Oliveira faleceu Domingo à noite, de ataque cardíaco.

Conheci-o há cerca de oito anos. Tinha trinta e poucos anos e estava a tentar entrar no ensino superior. Eu dava, na altura, formação em técnicas de expressão escrita, e o Miguel frequentou o curso para se candidatar ao exame ad hoc. Conseguiu ingressar em Design na ESAD de Matosinhos. Um ano mais tarde, encontrei-o por acaso e começou aí uma parceria de trabalho que durou mais de dois anos, com o objectivo de divulgar o artesanato e apoiar os criadores portugueses, através de fundos comunitários. Eu apenas contribuí com competências editoriais – apenas, porque foi durante esse período que tive o privilégio e a tristeza de experienciar o quanto a dedicação extrema a uma causa pode gerar em sofrimento. Miguel deu tudo: projectou as artes e ofícios internacionalmente, contribuiu para a legalização dos artesãos, potenciou a Artesanatus (feira internacional de artes e ofícios do Porto), fez das histórias dos artesãos livros… E, em troca, recebia, por vezes, a incompreensão de pessoas, que exigiam ainda mais… Entretanto, os apoios decresciam e a crise do país encostava as artes e ofícios à porta de uma sala de arrumos.

Por isso tudo, nos últimos anos, estava muito cansado. Queria desistir não dos criadores, mas das politiquices culturais. Abriu um atelier de design com dois colegas de faculdade, estava a tirar o mestrado em design ecológico e a sua motivação actual era construir um abrigo nocturno reciclado para os sem-abrigo. Há cerca de um mês, quando fui ao Porto em trabalho, confidenciou-me novamente que ia desistir do associativismo cultural. Como já mo tinha dito tantas vezes, nem lhe dei conversa. Agora, foi obrigado a desistir.

O Culturascópio mudou

Mudou porque todos precisamos de uma renovação de vez em quando. E os blogues também.

No entanto, a ilustração que suportou o blogue desde o seu início, em Novembro de 2008, mantém-se como imagem da secção “Notas & Reflexões”. Há coisas que devem ser mantidas, sobretudo para nor lembrarmos da sua origem.

Regresso à partilha

Dora_Santos_SilvaApós uma série de imprevistos que me deixaram na impossibilidade de actualizar o Culturascópio, regresso à conversa consigo, leitor, que já considero um amigo. A partilha da escrita tem de ser cada vez mais um acto de amizade, de grande valor, numa altura em que as palavras parecem ser mais efémeras do que nunca.

O prazer de uma papelaria ampla

magazine_rackGosto de poder observar as revistas de todos os formatos e feitios em prateleiras amplas, com possibilidade de explorar as capas, os respectivos temas de capa e o contexto visual e temático em que se inserem. Por isso, foi mesmo com borboletas no estômago que descobri que a velha papelaria/tabacaria no Centro Comercial Roma reabriu com centenas de revistas dispostas de forma ordenada, mesmo de propósito para regalar os olhos. E foi lá que comprei a edição de Abril da Monocle, uma das minhas revistas preferidas, que, por acaso, nunca encontrei na Barata, outro espaço de eleição, uns passos à frente na Avenida de Roma, onde ainda posso circular livremente pelas publicações e sentar e beber um café e passear, sem ninguém a perguntar-me de três em três segundos se preciso de ajuda ou a olhar-me de lado enquanto folheio qualquer coisa.

 

Parabéns a estes espaços.

Lisboa dos meus batimentos cardíacos

img_7229Já perdi a conta às vezes que me reapaixonei pela cidade de Lisboa. Neste Domingo, no final da tarde, lá aconteceu outra vez. Encheu-se-me o peito, as borboletas invadiram-me o estômago e a sensação de contenção dos batimentos cardíacos que experimentei ao olhar para alguns cenários de Helsínquia, de Barcelona ou da minha eterna Copenhaga (aquela sensação que tememos perder um dia) regressou na Praça Luís de Camões. Foi um misto de orgulho por ver que está tudo a ser restaurado e de prazer por ter voltado a senti-La. É muito bom apaixonar-me por outras cidades, mas melhor ainda é contar com o amor e o afecto da minha Lisboa.

 

(Esta é a base de uma relação feliz. O meu pai também o diz à minha mãe há cerca de 33 anos. )

Cultura em revista

ipsilon

De regresso a Lisboa, após três dias em Genebra (de que “falarei” oportunamente), passo em revista alguma imprensa e blogues, para reencontrar o meu porto de abrigo.

Eis o que me prendeu…

 

1.    A morte de António Alçada Baptista, aos 81 anos, no passado Domingo, dia 7 de Dezembro

O escritor e jornalista é recordado no Público pela sua “sensibilidade feminina” – enquadrava-se, segundo o próprio, entre os raros escritores que não tinham vergonha dos afectos – e defesa da “liberdade e dos direitos do Homem”. Para recordar o seu vasto contributo para a cultura portuguesa, é curioso ler, a título recordatório, um artigo publicado no urbi et orbi, de 2001, sobre o tema escolhido por Alçada Baptista a propósito das comemorações dos 75 anos do Orfeão da Covilhã, sua cidade-natal – “A importância da cultura na sociedade”.

 

2.  “O Mau uso dos microblogues”

A BBC admitiu um erro ao usar fontes do Twitter (via Indústrias Culturais)

 

3.    “Três livros de escritores portugueses fazem parte da lista dos 25 melhores livros de ficção traduzidos e publicados em 2008 nos Estados Unidos”

São eles “The Book of Chameleons (O Vendedor de Passados), de José Eduardo Agualusa, traduzido por Daniel Hahn (Simon & Schuster); Death with Interruptions (As Intermitências da Morte), de José Saramago, traduzido por Margaret Jull Costa (Houghton Mifflin Harcourt)¸ What Can I Do When Everything’s on Fire? (Que Farei Quando Tudo Arde?), de António Lobo Antunes, traduzido por Gregory Rabassa (W. W. Norton). A notícia completa pode ser lida no blogue Ler.

 

4.   Manoel de Oliveira completa 100 anos a filmar, no dia 11 de Dezembro

Ler a opinião de José Hermano Saraiva e o motivo da necessidade imperiosa de filmar no dia do seu aniversário, segundo o próprio realizador. Quem quiser assistir ao seu percurso cinematográfico, a Cinemateca termina por estes dias o ciclo dedicado à sua obra. O impressionante conto de Eça de Queirós – “Singularidades de uma rapariga loura” –, obra que Oliveira está precisamente a realizar, está disponível parcialmente aqui.

 

5.    “O suplemento de indústrias culturais do Público, o Ípsilon, já tem extensão online”

Um dos meus suplementos preferidos (via Blogtailors e Bibliotecário de Babel)

 

Melancolia de uma quarta-feira outonal

eandradeHoje, sinto-me desprovida de estações do ano e de “palavras exactas”. E por isso me recordo do Verão de Eduardo Prado Coelho e do Inverno de Eugénio de Andrade.

 

VEGETAL E SÓ

É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
Sem nenhuma melancolia,
eduardo_prado_coelho1Sem encontros marcados,
Sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito
O mais ardente dos meus braços,
O mais azul
O mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálperas acessas.

Deixa-me só, vegetal e só,
Correndo como rio de folhas
Para a noite onde a mais bela aventura
Se escreve exactamente sem nenhuma letra.

in «As palavras Interditas» (1951)

 

A vantagem de um blogue é podermos partilhar valores sem as amarras dos aniversários, das celebrações e das actualidades.