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As artes e ofícios portugueses estão de luto

Era presidente da Federação Portuguesa de Artes e Ofícios e da Associação de Artesãos da Região do Norte, designer e um grande, grande amigo. Os criadores portugueses devem-lhe muito e merece ser lembrado pela sua entrega total (a troco de poucas horas de sono, muito tabaco, porventura fatais para o seu coração, e um ordenado injusto) às artes e ofícios portugueses. Miguel Oliveira faleceu Domingo à noite, de ataque cardíaco.

Conheci-o há cerca de oito anos. Tinha trinta e poucos anos e estava a tentar entrar no ensino superior. Eu dava, na altura, formação em técnicas de expressão escrita, e o Miguel frequentou o curso para se candidatar ao exame ad hoc. Conseguiu ingressar em Design na ESAD de Matosinhos. Um ano mais tarde, encontrei-o por acaso e começou aí uma parceria de trabalho que durou mais de dois anos, com o objectivo de divulgar o artesanato e apoiar os criadores portugueses, através de fundos comunitários. Eu apenas contribuí com competências editoriais – apenas, porque foi durante esse período que tive o privilégio e a tristeza de experienciar o quanto a dedicação extrema a uma causa pode gerar em sofrimento. Miguel deu tudo: projectou as artes e ofícios internacionalmente, contribuiu para a legalização dos artesãos, potenciou a Artesanatus (feira internacional de artes e ofícios do Porto), fez das histórias dos artesãos livros… E, em troca, recebia, por vezes, a incompreensão de pessoas, que exigiam ainda mais… Entretanto, os apoios decresciam e a crise do país encostava as artes e ofícios à porta de uma sala de arrumos.

Por isso tudo, nos últimos anos, estava muito cansado. Queria desistir não dos criadores, mas das politiquices culturais. Abriu um atelier de design com dois colegas de faculdade, estava a tirar o mestrado em design ecológico e a sua motivação actual era construir um abrigo nocturno reciclado para os sem-abrigo. Há cerca de um mês, quando fui ao Porto em trabalho, confidenciou-me novamente que ia desistir do associativismo cultural. Como já mo tinha dito tantas vezes, nem lhe dei conversa. Agora, foi obrigado a desistir.

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Quero (mais) um destes, por favor

Se é para oferecer prendas no Dia de São Valentim, então que contem uma história. Os Lenços dos Namorados são tipicamente portugueses (da região minhota) e remontam aos séculos XVII e XVIII. Eram bordados pelas raparigas enamoradas que pretendiam conquistar determinado rapaz. Os motivos e as inscrições verbais eram muito variados, mas acabavam sempre por representar o amor, a felicidade e a amizade. Se os “conversados” exibissem publicamente o lenço por cima do seu casaco domingueiro, isso significava a oficialização da ligação amorosa ou do namoro.

Não é fácil encontrar estes Lenços dos Namorados em Lisboa. Descobri-os, por acaso, no Atelier 55, uma loja na rua do Teatro São Luís (R. António Maria Cardoso), que reúne artesanato tradicional e contemporâneo. Vale uma visita pela qualidade e diversidade de criadores representados.

Artesanatus 2009 – 5 a 23 de Dezembro, na Praça D. João I (Porto)

A edição 2009 da Artesanatus – uma das feiras de artes e ofícios mais importantes do país – está patente desta vez durante 19 dias, entre 5 e 23 de Dezembro, na Praça D. João I, no Porto. Este certamente anual é reconhecido pela qualidade dos criadores presentes e pelo equilíbrio entre artesanato tradicional e contemporâneo, promovido pela entidade organização – AARN.

Expositores (por organização de stands): Carla Mota (cerâmica), Bbbicho (bordados), Manuel Graça (registos), Ecolã (vestuário), Atelier S. Miguel (cerâmica figurativa), Iolanda (cerâmica), Dionísio (pasta de papel), Cor Mel (velas e acessórios), Perfumeu (sabonetes e perfumes), Júlia e Gabriel (brinquedos em madeira), Com Torno (mobiliário em madeira), Cousas em Couro (artigos em couro), Madalena Nogueira (bordados), Floris’bela (pasta de porcelana), Art. Castelo Daire (linho, lã e burel), Olaria Bulhão (cerâmica alentejana), José Santos / José Sousa (filigrana e talha em madeira), Sofia Ribeiro (esmaltes), Carlos Reis (marionetas em madeira), Loja da Villa (bordados de Castelo Branco), Atelier de Burel (burel), Delfim Manuel (cerâmica figurativa), Isilda Parente (bordados de Viana), Liliana Guerreiro (joalharia de autor), Guida Fonseca (tecelagem), C. M. Lousã (escultura em madeira), Olga Barradas (bordados e trapologia), Inventarte.com (mobiliário infantil), Tito Quitério (calçado em pele), Vânia Kosta (trapologia), Tapetes Beiras (tapeçaria), A Oficina (bordados / cerâmicas), Evaristo Silva (cerâmica pintada), Sr.ª Carica (acessórios de moda), Arca do Mosquité (cerâmica contemporânea), Art & Fusing (vitrofusão), Delfina Salvadores (lãs poveiras), Júlia Ramalho (cerâmica figurativa), Assis Rego (bordados da Lixa), Beatriz Sendim (trapologia), Projecto A 2 (cerâmica contemporânea), Arminda Mendez (acrílicos), Lima. Xana (cerâmica contemporânea), Arte de Feltro (feltros e lãs), Art. Mirandês (burel), Isabel Lacerda (cerâmica contemporânea), Sílvia Carola (artigos em pele), Leriprata (ourivesaria).