“A cultura no jornalismo cultural”

“A cultura no jornalismo cultural – Contributos para uma redefinição e ampliação do jornalismo cultural, no contexto das indústrias culturais e criativas” é o título da minha dissertação de Mestrado que irei defender no próximo dia 6, terça-feira, às 14h30, no auditório II da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – UNL. O Júri é constituído pelos Professores Doutores Rogério Santos, Jacinto Godinho e Maria Lucília Marcos.

Uma palavra de apreço a todos os que me apoiaram e, em especial, à minha orientadora, Professora Maria Lucília Marcos.

Tudo é cultura? (Sobre a definição de cultura – III parte)

Há pouco tempo, foi pedida a minha opinião acerca da afirmação “tudo é cultura”. Deixo aqui parte da resposta.

istock_000001393686mediumEm primeiro lugar, é necessário ter em conta que “cultura” é uma palavra complexa, que já foi sinónimo de “civilização”, de “educação” de “belas-artes” e “belas-letras”. A própria palavra evoluiu ao longo dos últimos três séculos e está ainda em constante mutação, não sendo estanque. Dito isto, é minha opinião que a cultura não é “tudo”, mas “tudo” poderá ser analisado ou abordado do ponto de vista cultural (tal como determinado acontecimento pode ser visto a nível político, económico ou social). Esta visão ampla da cultura é, essencialmente, antropológica, englobando a língua, as ideias, as crenças, os costumes, os códigos, as instituições dos povos, etc., ou seja, todas as manifestações humanas de determinado povo, comunidade, subcomunidade…  Contudo, cultura também pode referir-se apenas a alguns aspectos da produção humana, de valor simbólico, como as práticas artísticas.  

 

Ao dizermos que tudo é cultura, corremos o perigo de isso significar… tudo e nada. E o perigo continua se não introduzirmos na nossa reflexão o plural do conceito, como o disse Raymond Williams, em 1958. Na contemporaneidade, cultura implica uma diluição e fragmentação das fronteiras entre erudito e popular, cultura letrada e cultura oral, cultura dominante e dominada. Cada vez mais faz sentido dar voz às culturas particulares.

 

Quando abordamos o jornalismo cultural, a preocupação com a definição do conceito é outra e a um nível mais redutor. Questiona-se se as manifestações populares são “culturas”, se um filme de Spielberg é “cultura”, e, sobretudo, a possibilidade de alargar o jornalismo cultural que se pratica, incluindo, precisamente, manifestações culturais não dominantes ou abordagens culturais de determinados acontecimentos (na sua essência, políticos ou sociais). Naturalmente, os jornais têm secções sobre cultura, mas também neles se reflecte a dificuldade em definir “cultura”: o Diário de Notícias tem a secção de “Artes”; outros têm “Arte e Lazer” e outros integram na secção “Cultura” apenas artigos sobre literatura, música ou cinema…

 

Dora Santos Silva

Jornalista e doutoranda em Digital Media (FCSH-UNL | UT Austin).

Áreas de investigação:  jornalismo cultural e digital; indústrias culturais e criativas.

culturascopio@gmail.com

Este é o meu contributo para a blogosfera, nas áreas da cultura e do jornalismo cultural. Defendo uma visão de cultura mais alargada, que não se cinja, por um lado, às belas-artes e belas-letras e, por outro, ao culto das celebridades. A cultura contemporânea inclui todas as “criações simbólicas”, utilizando a expressão de David Hesmondalgh, num contexto em que os media, as indústrias culturais e as indústrias criativas assumem papéis essenciais. E é esta visão que quero partilhar convosco, diariamente.

Obrigada!