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II Congresso de Jornalismo Cultural

O II Congresso de Jornalismo Cultural, promovido pela revista Cult, começou ontem, 3 de Maio, e acaba no próximo dia 6. Do primeiro dia, destaco as conferências de Beatriz Sarlo sobre “Jornalismo cultural, literatura contemporânea e as novas mídias de comunicação” e do escritor Eric Lax sobre a formação de um biógrafo. Alguns excertos do evento (muito curtos, infelizmente) estão disponíveis, em vídeo, no blogue do Congresso,  e no twitter.

Que competências deve ter um jornalista cultural?

Um jornalista cultural tem de cobrir, analisar e reportar áreas culturais muito diversas, como a dança, as artes plásticas, o teatro, a música, o cinema, a Internet ou o design. Além disso, tem de saber contextualizá-las de acordo com os países ou regiões de onde provêm. Essa complexidade de competências e saberes é “agravada” com o advento das novas tecnologias (ciberarte, Internet, blogues), que obriga o jornalista a estar permanentemente actualizado. No entanto, a urgência do próprio mecanismo de construção de notícias, as pressões do mercado e até mesmo a pouca qualificação dos jornalistas acabam por ser obstáculos à qualidade do seu desempenho.

Para Rodriguez, o jornalista cultural tem de possuir “uma cultura geral que o permita identificar e correlacionar fenómenos, épocas, autores e obras significativas nas vertentes local e universal, segundo uma forte dose de observação e criatividade, e uma capacidade para sistematizar e sintetizar processos complexos numa fórmula comunicacional”. Neste contexto, é visto como um antropólogo social.

Isabelle Anchieta de Melo identifica três desafios para a formação de futuros jornalistas: a abordagem de temáticas clássicas, como a política e a economia através de uma óptica cultural, a inclusão de novas temáticas culturais – design, culinária e moda, por exemplo – que ganharam esse status recentemente, e o tratamento “sem preconceito” das indústrias culturais. A este desafio acrescentamos o tratamento das indústrias criativas.

Cabe também ao jornalista cultural ultrapassar (e fazer ultrapassar na mente das pessoas) a fronteira entre “alta” e “baixa” cultura e a limitação temática de lançamento de bens culturais, fruto da agenda de eventos. Há que ter mais competências (e vontade) para a análise e interpretação da cultura, sendo exigido, neste contexto, uma perspectiva aberta, sem paradigmas dominantes – além do referido, acresce a distinção entre indústrias culturais e cultura erudita, entre arte e mercado.

Uma formação básica de jornalistas culturais deverá incluir:

  • a problematização dos conceitos de cultura e jornalismo cultural;
  • leituras reflexivas sobre produtos culturais;
  • desenvolvimento do sentido estético para a observação e descrição das obras culturais,
  • apresentação do processo produtivo e dos géneros culturais;
  • compreensão e exploração das potencialidades dos diferentes meios na cobertura noticiosa cultural.

 

Esta formação permite que o jornalista cultural cumpra três características definidoras desta especialidade já abordadas em capítulos anteriores: o papel social, como mediador da obra cultural, o que o obriga a ter a capacidade de a compreender; o papel de responsabilidade social, veiculando a cultura a partir de uma abordagem aberta, sem paradigmas dominantes; o papel reflexivo, cumprindo simultaneamente uma função informativa e crítica.

Sobre o jornalismo tradicional de artes – resposta de Rockwell a McLennan

A quem leu o artigo sobre o futuro do jornalismo “tradicional” de artes de Douglas McLennan (sobre o qual escrevi aqui há uns dias) proponho a leitura dos comentários de John Rockwell a esse mesmo artigo, em particular na sua posição em relação à crítica cultural, que tem vindo a perder força e a sofrer de uma crise de identidade em todos media, inclusive em Portugal, onde esta está a ser substituída cada vez mais pelas reviews de índole comercial e por listas extensivas das agendas culturais.

 

Para este jornalista do New York Times, os melhores críticos de arte são “cúmplices” dos leitores e não superiores (de uma forma “snob”), criando laços e público fiel. Este género jornalístico – que é, no fundo, um elemento diferenciador do jornalismo de artes – não deve, por isso, ser renegado de um novo modelo desta área.

 

A meio do artigo, num parágrafo perdido, Rockwell consegue tocar na ferida, ironicamente numa passagem entre parênteses, ao “lançar” três problemas que afectam o jornalismo de artes – recursos humanos com demasiado trabalho, editores mal informados e, sobretudo, uma concepção prosaica e sem imaginação do que a cultura realmente significa hoje. Subscrevo sem dúvidas o último e fico à espera que Rockwell o aprofunde.

 

Jornalismo de variedades no Brasil: jornalismo cultural em Portugal?

jtpq2No Brasil, o chamado jornalismo de variedades compreende assuntos “considerados, à primeira vista, irrelevantes, tais como tendências estéticas, gastronomia, comportamentos, entre outros”, integrados em cadernos específicos que contêm também os assuntos tradicionalmente abordados pelo jornalismo cultural.

Esta comunicação, apresentada por Francisco Assis (Universidade Metodista de São Paulo) no VI SOPCOM foi motivo de uma saudável troca de ideias, devido ao facto de este conceito não ser utilizado em Portugal e também por, em minha opinião, esses assuntos fazerem, precisamente, parte do jornalismo cultural (para que este não se cinja mais à cultura clássica ou de elite). Vale a pena ler o texto integral de Francisco Assis aqui.

“Tendências do Jornalismo Cultural em Portugal” ? 6.º Congresso da SOPCOM

sopcomPor ocasião do 6.º Congresso da SOPCOM, irei apresentar no próximo dia 16 de Abril, entre as 18h e as 19h30, uma comunicação intitulada “Tendências do Jornalismo Cultural em Portugal”. A respectiva sessão, dedicada ao Jornalismo, é coordenada pelos Profs. Manuel Pinto e Rogério Santos.

 

O programa do Congresso pode ser visto aqui.

"A cultura no jornalismo cultural" II

Defendi ontem a minha dissertação de Mestrado intitulada “A cultura no jornalismo cultural. Contributos para uma redefinição e ampliação do jornalismo cultural português, no contexto das indústrias culturais e criativas.” na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em relação à qual obtive Muito Bom por unanimidade. Agradeço ao Professor Rogério Santos o resumo que fez no seu blogue “Indústrias Culturais”, que pode ser lido aqui.

“A cultura no jornalismo cultural”

“A cultura no jornalismo cultural – Contributos para uma redefinição e ampliação do jornalismo cultural, no contexto das indústrias culturais e criativas” é o título da minha dissertação de Mestrado que irei defender no próximo dia 6, terça-feira, às 14h30, no auditório II da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – UNL. O Júri é constituído pelos Professores Doutores Rogério Santos, Jacinto Godinho e Maria Lucília Marcos.

Uma palavra de apreço a todos os que me apoiaram e, em especial, à minha orientadora, Professora Maria Lucília Marcos.

"Eles não gostam dos cadernos culturais"

silencioAlberto Dines publicou ontem no Observatório de Imprensa (Brasil) um artigo no qual se insurge contra a opinião de Carlos Alberto Di Franco, da Universidade de Navarra, quando este diz que os “cadernos culturais dialogam consigo mesmos. O leitor é considerado um estorvo, um chato” e que “os jornais precisam de trabalhar com letras grandes”.

 

O próprio artigo e os comentários ao mesmo levantam muitas questões pertinentes quer se concorde com Dines quer se discorde dele. Apelo, por isso, aos vossos próprios comentários. O desafio está lançado.

Tudo é cultura? (Sobre a definição de cultura – III parte)

Há pouco tempo, foi pedida a minha opinião acerca da afirmação “tudo é cultura”. Deixo aqui parte da resposta.

istock_000001393686mediumEm primeiro lugar, é necessário ter em conta que “cultura” é uma palavra complexa, que já foi sinónimo de “civilização”, de “educação” de “belas-artes” e “belas-letras”. A própria palavra evoluiu ao longo dos últimos três séculos e está ainda em constante mutação, não sendo estanque. Dito isto, é minha opinião que a cultura não é “tudo”, mas “tudo” poderá ser analisado ou abordado do ponto de vista cultural (tal como determinado acontecimento pode ser visto a nível político, económico ou social). Esta visão ampla da cultura é, essencialmente, antropológica, englobando a língua, as ideias, as crenças, os costumes, os códigos, as instituições dos povos, etc., ou seja, todas as manifestações humanas de determinado povo, comunidade, subcomunidade…  Contudo, cultura também pode referir-se apenas a alguns aspectos da produção humana, de valor simbólico, como as práticas artísticas.  

 

Ao dizermos que tudo é cultura, corremos o perigo de isso significar… tudo e nada. E o perigo continua se não introduzirmos na nossa reflexão o plural do conceito, como o disse Raymond Williams, em 1958. Na contemporaneidade, cultura implica uma diluição e fragmentação das fronteiras entre erudito e popular, cultura letrada e cultura oral, cultura dominante e dominada. Cada vez mais faz sentido dar voz às culturas particulares.

 

Quando abordamos o jornalismo cultural, a preocupação com a definição do conceito é outra e a um nível mais redutor. Questiona-se se as manifestações populares são “culturas”, se um filme de Spielberg é “cultura”, e, sobretudo, a possibilidade de alargar o jornalismo cultural que se pratica, incluindo, precisamente, manifestações culturais não dominantes ou abordagens culturais de determinados acontecimentos (na sua essência, políticos ou sociais). Naturalmente, os jornais têm secções sobre cultura, mas também neles se reflecte a dificuldade em definir “cultura”: o Diário de Notícias tem a secção de “Artes”; outros têm “Arte e Lazer” e outros integram na secção “Cultura” apenas artigos sobre literatura, música ou cinema…