Os beijos de Nuno Milagre sobrevivem a tudo

A apresentação do seu segundo livro de poemas – “Um Beijo no Meio da Crise” – em Lisboa, no passado dia 22 de Dezembro e, agora, no próximo dia 30 de Janeiro, no Porto (ler detalhes no final da entrevista), foi o mote para uma curta conversa com Nuno Milagre sobre as vantagens das edições de autor, o cinema, as palavras e, incontornavelmente, os “seus” beijos.

“Um Beijo no Meio da Crise” é o teu segundo livro de poemas com edição de autor. Se tinhas receio de arriscar da primeira vez, em 2004, desta é um receio mais contido? O receio é sempre o mesmo. Publicar poemas é um acto de exposição pública, mas se se considera que há algo de novo a comunicar, algo que possa ter interesse para os outros, então vale a pena ultrapassar os receios e tornar os textos públicos.

Tentaste publicar junto de uma editora ou consideras que uma edição de autor traz mais vantagens? Não tentei publicar com uma editora. Sempre achei mais natural ser eu a fazer a edição. Assim publico no momento em que me é mais oportuno sem depender de calendários alheios, escolho os textos de que gosto e produzo o meu próprio livro. Poucas editoras me fariam livros tão bonitos como os que eu produzo, isto no que diz respeito ao desenho da capa, à escolha dos papéis e aos acabamentos. Dá mais trabalho, confronto-me com os obstáculos de todo o processo, o que inclui o lançamento e a distribuição do livro, mas só tenho que responder às minhas questões e não às questões de uma editora.

Estás, há muito tempo, ligado ao cinema, como assistente de realização e produtor. Por outro lado, escreves regularmente em publicações e fazes dos beijos poemas. Afinal, gostas mais da imagem ou da escrita? Que lugares ocupam, respectivamente? Trabalho em cinema há mais de dez anos, essa é a minha actividade profissional principal, é disso que vivo e gosto do meu trabalho. Quando a profissão mo permite, vou escrevendo. Publiquei dois livros em momentos que achei que tinha conjuntos de textos que mereciam ser reunidos num livro, e esporadicamente escrevo para a imprensa. Continuarei a trabalhar em cinema e a escrever, não são actividades incompatíveis e às vezes uma alimenta a outra, o que é uma vantagem. Sempre gostei de escrever e por isso nunca deixei de o fazer independentemente do que isso me possa retribuir em termos financeiros.

Para quem te conhece melhor, és o “Nuno Milagre” do filme “Diamante de Sangue” de Edward Zwick. Como tiveste a oportunidade de ingressar na equipa técnica do filme? Já tinha trabalhado em vários filmes de ficção e documentário em Moçambique e fui alargando a rede de contactos no país. Uns projectos trazem outros e foi assim que me convidaram para integrar a equipa técnica de “Diamante de Sangue”, pela via da direcção de produção moçambicana. Infelizmente, em Moçambique, há várias funções numa equipa técnica de cinema para as quais não há gente com formação suficiente para as desempenhar e têm que ir pessoas de fora.

“Dá-me esse beijo escondido / dá-me esse beijo que foge / dá-me esse beijo lento que ainda quase não é”… é um excerto de um poema do teu primeiro livro, “Irreconhecíveis Vistos do Espaço”. Com a crise, o beijo mudou? Os beijos dependem mais de quem os dá do que de questões exteriores, embora a conjuntura possa influenciar o estado de espírito das pessoas quando se beijam. Os beijos são anteriores à invenção da roda e ao domínio do fogo, sobreviveram e sobreviverão a todas as crises sem grandes alterações. Este livro, “Um Beijo no Meio da Crise”, é precisamente esse momento mágico de partilha em que o mundo e todas as injustiças e problemas deixam de existir. O amor, nem que seja por breves momentos, pode fazer esquecer tudo o resto.

Nuno Milagre é licenciado em Cinema. Tem sido assistente de realização em vários filmes, incluindo publicitários. Colabora regularmente com jornais e revistas. Em 2004, lançou o seu primeiro livro de poemas, “Irreconhecíveis vistos do espaço”, e, em 2009, “Um beijo no meio da crise”.

A próxima apresentação pública do livro “Um beijo no meio da crise” será no Porto, no Café Progresso (www.cafeprogresso.net), dia 30 de Janeiro, às 18 horas, e conta com a participação de António Capelo, Fernando Mariano e Inês Leite. Para já pode ser adquirido em várias livrarias em Lisboa (Pó dos Livros, Poesia Incompleta, Letra Livre, Book House, Trama, Artes e Letras, Carpe Diem, Casa da Achada e a livraria do cinema King) ou através do autor (noussnouss@gmail.com).

capa

Lançamento do livro "Um beijo no meio da crise" de Nuno Milagre

 

Nuno Milagre apresenta hoje, às 19h, o seu livro de poemas “Um beijo no meio da crise”, em Lisboa, na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio. A sessão de apresentação conta também com Carla Bolito, Carlos Paca e Gonçalo Amorim.

A Casa da Achada – Centro Mário Dionísio fica aqui.

"O maior poema da cidade"

pA Salomé Pinto escreveu-me sobre a última iniciativa da associação cultural a que preside, “Teia dos Sentidos”. Trata-se da criação do maior poema de São João da Madeira, a partir de versos subordinados ao tema “Primavera”, enviados por qualquer pessoa ligada de alguma forma a esta cidade. O projecto poderá ser acompanhado através do blogue http://omaiorpoemadacidade.blog.pt.

 

Tomo a liberdade de sugerir um exercício hipertextual: seria interessante transformar o poema numa teia de intra e inter-remissões.

Melancolia de uma quarta-feira outonal

eandradeHoje, sinto-me desprovida de estações do ano e de “palavras exactas”. E por isso me recordo do Verão de Eduardo Prado Coelho e do Inverno de Eugénio de Andrade.

 

VEGETAL E SÓ

É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
Sem nenhuma melancolia,
eduardo_prado_coelho1Sem encontros marcados,
Sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito
O mais ardente dos meus braços,
O mais azul
O mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
Sem a febre de tantos lábios,
Sem nenhum rumor de lágrimas
Nas pálperas acessas.

Deixa-me só, vegetal e só,
Correndo como rio de folhas
Para a noite onde a mais bela aventura
Se escreve exactamente sem nenhuma letra.

in «As palavras Interditas» (1951)

 

A vantagem de um blogue é podermos partilhar valores sem as amarras dos aniversários, das celebrações e das actualidades.